As milícias em benefício próprio descobriram como barganhar com a vida dos brasileiros e ganhar adeptos manipulando o medo e o ódio.
Mas qual é o contexto e o que o MBL e outras milícias semelhantes defendem? Se este tipo de grupo se formou erguendo a bandeira da “anticorrupção” e não promove nenhuma manifestação nas ruas contra um presidente denunciado duas vezes e um dos governos mais corruptos da história do Brasil, é possível levantar a hipótese bastante óbvia de que a “corrupção” nunca foi o alvo.
Quando são citados na imprensa, MBL e assemelhados são tachados de “conservadores” e “liberais”. Isso os coloca sempre num polo contra outro polo, o que é essencial para este tipo de milícia sobreviver, se replicar e agir em rede. E dá a estas milícias uma consistência que não condiz com a realidade de seu conteúdo. Liberais de fato jamais tentariam fechar uma mostra de arte, para ficar apenas num exemplo. Nem faz sentido dizer que são “conservadores” ou mesmo de “direita”. Eles são o que lhes for conveniente ser.
A dificuldade de nomear o que são, é importante perceber, os favorece. E acabam se beneficiando de rótulos aos quais lhes interessa estar associados num momento ou outro e que lhes emprestam um conteúdo que não possuem, mas do qual sempre podem escapar quando lhes convêm. Neste sentido, apesar de exibirem como imagem um corpo compacto, essas milícias são fluidas. Embora ajam sobre os corpos, não há corpo algum. Isso lhes facilita se moverem, por exemplo, da luta anticorrupção para as bandeiras morais, agora que não lhes interessa mais derrubar o presidente.
A descoberta de que temas “morais” são uma excelente moeda de barganha não é prerrogativa do MBL e de seus assemelhados. Esta moeda sempre esteve em circulação. Na Nova República, que se seguiu à ditadura civil-militar (1964-1985), ela esteve na primeira eleição presidencial da redemocratização, quando Fernando Collor de Mello, que depois se tornaria o primeiro presidente a sofrer impeachment, usou fartamente contra Lula o fato de que ele tinha uma filha de uma relação anterior ao seu casamento com Marisa Letícia e que teria sugerido um aborto à então namorada.
Mas o marco fundador do que vivemos hoje pode ser localizado bem mais tarde, na eleição de 2010. Naquele momento, ao perceber o potencial eleitoral do crescimento dos evangélicos no Brasil, em especial dos neopentecostais, alguns oportunistas perceberam que jogar o tema do aborto no palanque poderia ser conveniente. Tanto para conquistar o voto religioso quanto para derrubar opositores.
No final do primeiro turno de 2010, a internet e as ruas foram tomadas por uma campanha anônima, na qual se afirmava que Dilma Rousseff era “abortista” e “assassina de fetos”. Rousseff começou a perder votos entre os evangélicos e parte dos bispos e padres católicos exortou os fiéis a não votar nela. José Serra (PSDB) empenhou-se em tirar proveito do ataque vindo das catacumbas, determinando o rumo da campanha dali em diante. E Rousseff correu a buscar o apoio de religiosos, acabando por escrever uma carta declarando-se “pessoalmente contra o aborto”. Nela, comprometia-se, em caso de vencer a eleição, a não propor nenhuma medida para alterar a legislação sobre o tema.
Quem peregrinou por templos evangélicos defendendo Rousseff e garantindo que ela era contra o aborto foi justamente Eduardo Cunha (PMDB), que depois lideraria o processo de impeachment da presidente eleita e hoje está preso. Naquele momento, o debate político, que nas eleições anteriores tinha se mantido dentro de certos parâmetros éticos, foi rebaixado. E os oportunistas religiosos e não religiosos farejaram que estes eram o temas com que poderiam garantir vantagens para si mesmos e para seus grupos, traficando-os no balcão de negócios de Brasília. Quando os limites são superados, mesmo aqueles que promoveram a sua superação não são capazes de prever até onde isso pode chegar. Desde então, o corpo de mulheres e de gays, lésbicas, travestis e transexuais tornou-se uma das principais moedas de barganha eleitoral.
As milícias rapidamente compreenderam esse potencial. Seu trunfo é comprovar que podem levar as massas para onde quiserem, o que as torna valiosas para políticos com grandes ambições eleitorais e valiosas para seus líderes com ambições eleitorais. Mas só podem levá-las porque se comunicam com uma população que se sente cada vez mais insegura e desamparada e que é a primeira a sofrer com a crise econômica e a crescente dureza dos dias sem saúde, sem escola, sem serviços básicos, enquanto assiste a um noticiário que é quase todo ele sobre malas de dinheiro da corrupção. Uma população que há anos tem sido treinada por programas policialescos/sensacionalistas na TV que atribuem todas as dificuldades a facínoras à solta, adestrando-a a ver as mazelas da vida cotidiana como culpa de alguém que pode e deve ser eliminado – e não a uma estrutura mais complexa que a mantém cimentada no lugar dos explorados.
As milícias compreendem o potencial desse medo e desse ódio.
E sabem se comunicar com esse medo e esse ódio. Encontraram o canal, o
ponto a ser tocado. Encontrado o canal, o inimigo pode ser mudado
conforme a conveniência. Se agora não interessa derrubar o presidente
denunciado por corrupção, há que se encontrar um outro alvo para
canalizar esse ódio e esse medo e manter o número de seguidores cativos
e, de preferência, crescendo, atingindo públicos mais amplos. E,
principalmente, manter o valor de mercado das milícias em alta, em
especial às vésperas de uma campanha eleitoral das mais imprevisíveis.
Assim, testemunhamos um fenômeno de ilusão na semana passada. O problema do Brasil já não era a desigualdade nem a pobreza que voltou a crescer. Nem mesmo o desemprego. Nem a crescente violência no campo e nas periferias promovidas em grande parte pelas próprias forças de segurança do Estado a serviço de grupos no poder. Nem o desinvestimento na saúde e na educação. Nem a destruição da floresta amazônica e o ataque aos povos indígenas e quilombolas pelos chamados “ruralistas”. Nem projetos que mexem em direitos conquistados na área trabalhista e da previdência sendo levados adiante sem debate por um governo corrupto. Não.
De repente, na semana passada, o problema do Brasil tornou-se, para milhões de brasileiros, a certeza de que o país é dominado por pedófilos e defensores do sexo com animais. Agora, são artistas que devem ser perseguidos, presos e até, como se viu em algumas manifestações nas redes sociais, mortos. E não só artistas, mas também quadros e peças de teatro. O problema do Brasil é que pedófilos querem corromper as crianças e transgêneros querem destruir as famílias.
Assim como pouco antes o problema do Brasil era o fato de os negros, maioria da população, passarem a ter o acesso à universidade ampliado por ações afirmativas. E o problema do Brasil seria uma suposta doutrinação partidária nas escolas – e não a falta de investimento em educação e o salário de fome dos professores e as escolas caindo aos pedaços. Com esse truque de ilusionismo coletivo se desvia da necessidade de mudar algo muito mais estrutural em um dos países mais desiguais do mundo.
Assim, testemunhamos um fenômeno de ilusão na semana passada. O problema do Brasil já não era a desigualdade nem a pobreza que voltou a crescer. Nem mesmo o desemprego. Nem a crescente violência no campo e nas periferias promovidas em grande parte pelas próprias forças de segurança do Estado a serviço de grupos no poder. Nem o desinvestimento na saúde e na educação. Nem a destruição da floresta amazônica e o ataque aos povos indígenas e quilombolas pelos chamados “ruralistas”. Nem projetos que mexem em direitos conquistados na área trabalhista e da previdência sendo levados adiante sem debate por um governo corrupto. Não.
De repente, na semana passada, o problema do Brasil tornou-se, para milhões de brasileiros, a certeza de que o país é dominado por pedófilos e defensores do sexo com animais. Agora, são artistas que devem ser perseguidos, presos e até, como se viu em algumas manifestações nas redes sociais, mortos. E não só artistas, mas também quadros e peças de teatro. O problema do Brasil é que pedófilos querem corromper as crianças e transgêneros querem destruir as famílias.
Assim como pouco antes o problema do Brasil era o fato de os negros, maioria da população, passarem a ter o acesso à universidade ampliado por ações afirmativas. E o problema do Brasil seria uma suposta doutrinação partidária nas escolas – e não a falta de investimento em educação e o salário de fome dos professores e as escolas caindo aos pedaços. Com esse truque de ilusionismo coletivo se desvia da necessidade de mudar algo muito mais estrutural em um dos países mais desiguais do mundo.
O prejuízo causado pelo ataque à exposição é menos a questão da liberdade de expressão e mais o apagamento dos massacres reais
O prejuízo causado pelo ataque à exposição de arte é menos a
questão da censura e do cerceamento da liberdade de expressão, como foi
colocado por parte dos que reagiram contra o fechamento da mostra, e
mais o apagamento que ataques como este ajudam a produzir e a perpetuar.
Como o número assombroso de homossexuais assassinados e de estupros de
mulheres no país. Para lembrar: segundo o Grupo Gay da Bahia, que
documenta a violência produzida por homofobia, só neste ano 251 pessoas
foram assassinadas por sua orientação sexual. No ano passado, ocorreram
343 assassinatos. Os crimes por homofobia vêm crescendo: entre 2005 e
2014 foram 2181 homicídios e, apenas entre 2015 e 2017, já são 3093. Em
2014, metade dos casos registrados de transfobia letal no mundo ocorreu
no Brasil. Este massacre, este que é real, este que se dá sobre os
corpos de pessoas, este não produz nenhum protesto ou comoção.
A cada hora, no Brasil, cinco mulheres são estupradas. Isso
significa que, enquanto você lê este texto, pelo menos uma mulher já
sofreu ou está sofrendo um estupro. E isso são apenas os casos
documentados. A estimativa, segundo estudo do IPEA (Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada), é de que apenas 10% dos estupros são
registrados pela polícia. Assim, o número verdadeiro seria de mais de
meio milhão de estupros por ano no Brasil. Este massacre, este que é
real, este que se dá sobre os corpos de pessoas, este não produz comoção
no país.
Ao denunciar a arte e os artistas como “pedófilos”, o que se produz é o
apagamento de um fato bastante incômodo: o de que a maioria das crianças
violadas é violada por familiares e conhecidos
Ao denunciar a arte e os artistas como “pedófilos”, o que se
produz é o apagamento de um fato bastante incômodo: o de que a maioria
das crianças violadas é violada por familiares e conhecidos. Pelo menos
um quarto dos casos de violação de crianças tem como autor pais e
padrastos. Ocorre, portanto, naquilo que a bancada da Bíblia tenta
vender como a única família possível, formada por um homem e por uma
mulher.
Essa mesma estratégia faz com que a guerra contra as cotas
raciais torne ainda mais invisível o horror concreto: o genocídio da
juventude negra e pobre. E o “Escola Sem Partido” desloca o problema
real, o desinvestimento na escola pública, justamente a que abriga os
mais pobres, para um falso problema, a suposta doutrinação política. E
assim, com os males reais sendo invisibilizados e apagados, tudo
continua como está. E aqueles que gritam seguem cimentados na mesma
posição na pirâmide social.
Para que as milícias sigam arregimentando odiadores é preciso que a
compreensão do mundo seja cada vez mais literalizada, por isso é tão
importante atingir a cultura, aquela que amplia as subjetividades
O fato de que as mais recentes ofensivas sejam contra a
cultura não é um dado qualquer. É também por movimentos culturais
surgidos nas periferias do país e apoiados por programas públicos,
especialmente nas gestões de Gilberto Gil e de Juca Ferreira, que uma
juventude politizada fortaleceu sua atuação. É também nas artes e na
literatura que se encontra a maior possibilidade de ampliação das
subjetividades. E é a subjetividade que nos ajuda a compreender o mundo
em que vivemos para além do que nos é dado para ver.
E isso também não é um detalhe: para as milícias seguirem
arregimentando eleitores e odiadores é preciso que a compreensão do
mundo siga literalizada – ou seja, sem a possibilidade de recursos como
metáforas, ironias e invenções de linguagem. Nesse ritmo, daqui a pouco,
quando alguém disser coisas como “boca da noite”, um outro vai rebater
com a afirmação de que “noite não tem boca”. É também isso que aconteceu
quando muitos olharam para a exposição e só literalizaram o que viram
lá, bloqueados em qualquer outra possibilidade de entrar em contato com
seus próprios sentidos e realidades inconscientes.
Se os programas policialescos/sensacionalistas colaboraram para a
compreensão unidimensional do Brasil, as novas igrejas evangélicas
cumpriram o papel de literalizar a linguagem de parte dos brasileiros
Se os programas policialescos/sensacionalistas de TV
desempenharam e desempenham um papel fundamental para a compreensão
simplista do Brasil e dos problemas do Brasil, ao eleger um “culpado”
individualizado, sem tocar em questões de desigualdade racial e social e
questões de acesso a direitos básicos como a própria justiça, as
igrejas evangélicas neopentecostais cumpriram e cumprem o papel de
literalizar a linguagem. Há gerações sendo formadas na interpretação
literal da Bíblia, para muitos o único livro que leem. O que milícias
como MBL perceberam é a possibilidade de manipular essa mesma
matéria-prima, arregimentando massas já bem treinadas em enxergar
inimigos e literalizar a linguagem.
Há um ponto nesse episódio que é revelador de onde milícias
como MBL querem chegar. É o ponto de encaixe. As milícias sempre
vociferaram contra os “vândalos” e “desordeiros” que quebravam fachadas
de bancos em protestos contrários à sua bandeira de ocasião. Desta vez,
aparentemente investiram contra o Santander, um dos maiores bancos do
mundo, ao pregar um boicote. Mas não era contra o Santander, e sim
contra o fato de uma exposição que afirmaram ser de “apologia à
pedofilia e à zoofilia” ter sido financiada por dinheiro de renúncia
fiscal via lei Rouanet. O verdadeiro alvo do ataque é o investimento de
dinheiro público em cultura. Se a lei Rouanet tem problemas e pode ser
aprimorada, ela significou um investimento importante numa área sempre
relegada e que tem sofrido enormemente no atual governo.
Neste ponto, vale a pena perceber quais são os candidatos
que apoiam e são apoiados por milícias como o MBL. Em São Paulo, João
Doria Jr (PSDB), o político cuja política é se dizer não político. Volta
e meia são postadas nos sites das milícias as fotos de Doria
serelepando pelo Brasil em seu jatinho particular. Nestes posts, é
enaltecido o fato de que ele não gasta dinheiro público para se
locomover “a serviço de São Paulo”.
Os milhares que apertam a tecla de “curtir” esse tipo de
mensagem podem não perceber que se propagam ali duas ideias que
prejudicam a maioria da população: 1) que só ricos podem ser eleitos; 2)
que o investimento de dinheiro público é ruim para o Brasil, quando
justamente é fundamental para combater a desigualdade e garantir o
acesso a direitos básicos que se invista em saúde, educação e transporte
público, entre outros temas prioritários. A ideia de que todo
investimento público é suspeito ou será desviado para a corrupção é
bastante conveniente para políticos e candidatos da política tradicional
a serviço do mercado. Quanto menos o Estado atuar e investir em áreas
estratégicas para a vida cotidiana e a qualificação da população, há
mais espaço para negócios que só crescem pela sua ausência.
Outro exemplo é o prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan
Jr, também do PSDB, notório apoiador e apoiado pelo MBL. A nota do
Santander Brasil foi publicada na página oficial do prefeito,
com a afirmação de que “a exposição mostrava imagens de pedofilia e
zoofilia”. Horas depois, foi apagada. A milícia desempenhou um papel
importante em sua vitória na última eleição. E é para a eleição de 2018
que o MBL vem ensaiando lances cada vez mais ousados, como o da
exposição, que pode ter levado alguns de seus apoiadores e apoiados a um
afastamento temporário. Mas o que importa é e sempre será o poder das
milícias de influenciar eleitores/odiadores.
Um grita: “Pedófilo!”. O outro responde: “Nazista!”.
O que muda?
De nada adianta chamar as pessoas que se manifestaram contra
a mostra de “ignorantes”, “fascistas” e “nazistas”. É também preciso
escutá-los para além do óbvio. E para além do que é dado a ver. Do
contrário, aqueles que “entendem a arte” se colocam no melhor lugar para
as milícias, o de um polo oposto que iguala a todos no patamar do
rebaixamento e produz o apagamento das diferenças. Um grita:
“Pedófilo!”. O outro responde: “Nazista!”. O que muda? Se estes são “os
que entendem”, há que usar esse entendimento para não fazer o jogo das
milícias.
Também não adianta gritar que as pessoas não compreendem o
que é arte. Se parte significativa da população não teve e não tem
acesso à arte é também porque os privilégios se mantêm intactos neste
país graças a muita gente que entende de arte. E nada, muito menos a
arte, deve estar protegida do debate. O ataque é abusivo. O debate é
necessário.
Há diferenças entre as milícias que lideram os ataques e aqueles que
elas conseguem arregimentar para os ataques: é essencial compreender
essas diferenças e aprender a dialogar com elas
Há diferenças entre as milícias que lideram os ataques e
aqueles que elas conseguem arregimentar para os ataques. É importante
compreender essas diferenças e aprender a dialogar com elas. Durante a
semana passada, por exemplo, evangélicos replicaram mensagens enviadas
por seus pastores contra a mostra e a “apologia à pedofilia”. Mas
algumas destas pessoas, com quem conversei, estavam replicando a
mensagem ao mesmo tempo que participavam ativamente de debates públicos
sobre direitos humanos e maior investimento no SUS. Estas, por exemplo,
são pessoas com quem é possível conversar. E este é apenas um exemplo. É
um erro confundir os líderes das milícias com aqueles que
ocasionalmente lideram. Assim como é um erro colocar o complexo mundo
evangélico brasileiro no mesmo escaninho.
A crise, como não custa repetir, é também de palavra. Ou principalmente de palavra. E o esvaziamento das palavras é algo poderoso.
Como o “livre” do Movimento Brasil Livre (MBL). Ou como “Escola Sem
Partido”, um projeto que toma vários partidos. Mas as palavras que os
confrontam já se esvaziaram. Como “fascista”, que já pouco ou nada diz. E
agora também “nazista” já se desidrata. Para uma parte significativa da
população, os conceitos de “direita” e “esquerda” pouco significam. E
“pedófilo” agora pode ser alguém que pintou um quadro. Assim como as gentes na internet vão virando fantasmagorias, as palavras também.
A literalização da linguagem é apenas uma das faces da crise
da palavra. Os brasileiros sempre tiveram uma linguagem riquíssima,
complexa, de invenção, povoada por subjetividades. Guimarães Rosa, um
dos maiores ícones da literatura brasileira, bebeu nesta fonte – e não o
contrário. Alguns dos melhores momentos da música brasileira foram
paridos por essa inventividade ousada. É o teatro quem tem melhor dado
conta do atual momento do Brasil.
É nesta resistência que é preciso apostar. E para isso é
preciso investir muito no fortalecimento dos movimentos culturais. E é
preciso fazer a disputa também ou principalmente pela linguagem. Quando
tantos gritam “pedófilo” é preciso escutar e responder de forma que o
diálogo seja possível. Quem ganha com o esvaziamento das palavras já
sabemos. Quem perde nem sempre percebe que perde.
Aqueles que investem no terror sabem apenas como começa. Mas
como ignoram a história e apostam na desmemória, não aprenderam uma
lição básica: quando se manipula medos e ódios, o controle é apenas uma
ilusão. Nunca se sabe até onde pode chegar nem como acaba.
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum
Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/18/opinion/1505755907_773105.html
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