quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A VIOLÊNCIA COMO DESCARACTERIZAÇÃO DO HUMANO: UMA PERSPECTIVA ANTROPOLÓGICA

A violência pode ser algo de crucial importância na constituição do ser do homem.

A violência exalta, sobretudo, uma fraqueza de caráter e uma procura de conforto. 
A violência exalta, sobretudo, uma fraqueza de caráter e uma procura de conforto. (Reprodução/ Pixabay)

Por Aldo Reis*


Na medida em que adentramos à temática da violência, mais crescem as dúvidas e a necessidade de mobilizar reflexões e o aprofundamento de conceitos articulados ao fenômeno da violência. As primeiras narrativas de práticas violentas e criminosas foram manifestas na Bíblia, que apresentou através de seus versículos situações de roubos, estupros e homicídios, considerados atos desvirtuosos segundo as leis divinas, que uma vez desobedecidas submetia a sociedade da época à punição (dilúvio, pragas do Egito, expulsão do paraíso). Como expoente de crimes bíblicos, o evento fratricida, em que “Caim matou Abel” (cf. Gn 4), evidencia historicamente que mesmo nas relações de proximidade existem disputas de poder potencializadas por sentimentos de ódio e vingança. Mesmo com as referências da Bíblia, é desconhecida oficialmente a origem da violência e do crime, o fato é que ela se estabelece de forma crescente entre os seres humanos.
Diariamente, a maior parte dos espaços midiáticos é preenchida por notícias que remetem à temível palavra “violência”.  Diante de tamanha repercussão, podemos frequentemente nos perguntar: a violência se refere a um desvio da conduta humana? É parte da condição humana? E a cultura, influencia? Que é o ser humano e suas características antropológicas?
Isso, do ponto de vista da análise descritiva social, apresenta-se como uma forma de tremenda crueldade, representando, assim, um enorme desafio para as reflexões e não permite que filósofos, teólogos e sociólogos repousem e venham a descansar.
Na mesma medida em que lidamos com notícias informativas sobre atos instrinsecamente violentos, o assunto quase não é discutido de maneira clara e objetiva, passando, assim, a ocupar apenas um campo de interpretação subjetivo.
Violência é um termo cuja pluralidade de acepções remete a uma infinitude de definições e análises. Todavia nos propomos a dissertar, nessa extensão interpretativa, sobre o elemento projetivo, antropomórfico e antropológico que liga a violência ao verbo latino “violare” que significa violar, infringir, profanar.
Nossa reflexão perpassa por fontes históricas e filosóficas, onde nos deparamos com o pensamento grego que, ao propor uma reflexão sobre o assunto, diagnosticou a violência como a falta de medida ou excesso que habitam o ser humano e o induz à transgressão das leis divinas, da justiça, do bem comum e da verdade. Assim, como fenômeno transgressor e atitude profana, a violência é mais própria da cultura (ethos) do que da natureza (physis) do ser humano.
Na linguagem popular, a violência aponta para uma utilização excessiva e agressiva da força psíquica que conduz a uma relação brutal que é avessa à humanidade. Todavia, reduzir a violência a um comportamento natural e instintivo conduz à destruição de toda a noção de responsabilidade humana e, consequentemente, daqueles que a praticam.

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Platão foi o primeiro filósofo ocidental que mencionou a violência ativa como uma força de sedução que os tiranos exercem sobre os espíritos fracos e a violência reativa como a que cresce, por vezes, com a revolta por desespero.
Tempos depois, Kant se pergunta sobre a origem da violência e averigua que a verdadeira causa da violência no ser humano é a falta de consciência moral. A violência exalta, sobretudo, uma fraqueza de caráter e uma procura de conforto. Se a violência não é irracional, então não provém de uma fatalidade.
A violência como condição antropológica fundamental de um fenômeno especificamente humano é essencial, primordial e constitui o que alguns autores chamam de “homo violens”, sendo esse o ser humano definido, estruturado fundamentalmente pela violência. Nesse sentido, temos a violência como de crucial importância na constituição do ser do homem.
De um lado temos a violência como originária da cultura, ou seja, por meio de uma violação de suas características naturais e instintivas, o sujeito entra no mundo cultural e passa, assim, a assimilar o que o envolve e a desenvolver sua personalidade.
De outro lado temos a violência imbuída de mecanismos cuja finalidade é dominar e retirar o sujeito de sua condição humana natural. A escola, a religião, os sistemas sociais e outras instituições agem como controladoras da natureza humana a fim de canalizar o “instinto violento” do ser humano. Tais ações, embora também violentas, tendem a constituir duas formas de instrumentalização. Uma propõe a ruptura de situações opressoras, como lutas sindicais, etc. Já a outra seria justamente o oposto.
Podemos concluir que, em se tratando de uma análise sistemática acerca do tema, não caberia a nós a busca pelo esgotamento do assunto, pois a sua complexidade demanda estudos mais profundos e tênues.
Assim, não podemos nos contentar com apenas a descrição dos fenômenos violentos que se nos aparecem diariamente. Independente das diferentes facetas da violência, cabe-nos, ainda, perguntar: Por quê a violência? Ou, por quê há violência? Como controlar tudo isso, considerando que, em uma dimensão alteritária, sobressai-se os efeitos avassaladores dos sistemas que nos sufocam e incidem nas relações?


*Aldo Reis é palestrante, empresário e escritor. Pesquisador nas áreas de antropologia, ética, fenomenologia e educação. Bacharel em Filosofia pela PUC Minas. Estudou Licenciatura em Filosofia Eclesiástica e Teologia pela Universidad de Navarra, Espanha. Ex-mestrando em Educação pela PUC Goiás. 


Disponível em:  http://domtotal.com/noticia/1232825/2018/02/a-violencia-como-descaracterizacao-do-humano-uma-perspectiva-antropologica/
 

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