A violência pode ser algo de crucial importância na constituição do ser do homem.
A violência exalta, sobretudo, uma fraqueza de caráter e uma procura de conforto. (Reprodução/ Pixabay)
Por Aldo Reis*
Na
medida em que adentramos à temática da violência, mais crescem as
dúvidas e a necessidade de mobilizar reflexões e o aprofundamento de
conceitos articulados ao fenômeno da violência. As primeiras narrativas
de práticas violentas e criminosas foram manifestas na Bíblia, que
apresentou através de seus versículos situações de roubos, estupros e
homicídios, considerados atos desvirtuosos segundo as leis divinas, que
uma vez desobedecidas submetia a sociedade da época à punição (dilúvio,
pragas do Egito, expulsão do paraíso). Como expoente de crimes bíblicos,
o evento fratricida, em que “Caim matou Abel” (cf. Gn 4), evidencia
historicamente que mesmo nas relações de proximidade existem disputas de
poder potencializadas por sentimentos de ódio e vingança. Mesmo com as
referências da Bíblia, é desconhecida oficialmente a origem da violência
e do crime, o fato é que ela se estabelece de forma crescente entre os
seres humanos.
Diariamente,
a maior parte dos espaços midiáticos é preenchida por notícias que
remetem à temível palavra “violência”. Diante de tamanha repercussão,
podemos frequentemente nos perguntar: a violência se refere a um desvio
da conduta humana? É parte da condição humana? E a cultura, influencia?
Que é o ser humano e suas características antropológicas?
Isso, do
ponto de vista da análise descritiva social, apresenta-se como uma
forma de tremenda crueldade, representando, assim, um enorme desafio
para as reflexões e não permite que filósofos, teólogos e sociólogos
repousem e venham a descansar.
Na mesma medida em que lidamos com
notícias informativas sobre atos instrinsecamente violentos, o assunto
quase não é discutido de maneira clara e objetiva, passando, assim, a
ocupar apenas um campo de interpretação subjetivo.
Violência é um
termo cuja pluralidade de acepções remete a uma infinitude de definições
e análises. Todavia nos propomos a dissertar, nessa extensão
interpretativa, sobre o elemento projetivo, antropomórfico e
antropológico que liga a violência ao verbo latino “violare” que significa violar, infringir, profanar.
Nossa
reflexão perpassa por fontes históricas e filosóficas, onde nos
deparamos com o pensamento grego que, ao propor uma reflexão sobre o
assunto, diagnosticou a violência como a falta de medida ou excesso que
habitam o ser humano e o induz à transgressão das leis divinas, da
justiça, do bem comum e da verdade. Assim, como fenômeno transgressor e
atitude profana, a violência é mais própria da cultura (ethos) do que da
natureza (physis) do ser humano.
Na linguagem popular, a
violência aponta para uma utilização excessiva e agressiva da força
psíquica que conduz a uma relação brutal que é avessa à humanidade.
Todavia, reduzir a violência a um comportamento natural e instintivo
conduz à destruição de toda a noção de responsabilidade humana e,
consequentemente, daqueles que a praticam.
Platão foi o primeiro
filósofo ocidental que mencionou a violência ativa como uma força de
sedução que os tiranos exercem sobre os espíritos fracos e a violência
reativa como a que cresce, por vezes, com a revolta por desespero.
Tempos
depois, Kant se pergunta sobre a origem da violência e averigua que a
verdadeira causa da violência no ser humano é a falta de consciência
moral. A violência exalta, sobretudo, uma fraqueza de caráter e uma
procura de conforto. Se a violência não é irracional, então não provém
de uma fatalidade.
A violência como condição antropológica
fundamental de um fenômeno especificamente humano é essencial,
primordial e constitui o que alguns autores chamam de “homo violens”,
sendo esse o ser humano definido, estruturado fundamentalmente pela
violência. Nesse sentido, temos a violência como de crucial importância
na constituição do ser do homem.
De um lado temos a violência como
originária da cultura, ou seja, por meio de uma violação de suas
características naturais e instintivas, o sujeito entra no mundo
cultural e passa, assim, a assimilar o que o envolve e a desenvolver sua
personalidade.
De outro lado temos a violência imbuída de
mecanismos cuja finalidade é dominar e retirar o sujeito de sua condição
humana natural. A escola, a religião, os sistemas sociais e outras
instituições agem como controladoras da natureza humana a fim de
canalizar o “instinto violento” do ser humano. Tais ações, embora também
violentas, tendem a constituir duas formas de instrumentalização. Uma
propõe a ruptura de situações opressoras, como lutas sindicais, etc. Já a
outra seria justamente o oposto.
Podemos concluir que, em se
tratando de uma análise sistemática acerca do tema, não caberia a nós a
busca pelo esgotamento do assunto, pois a sua complexidade demanda
estudos mais profundos e tênues.
Assim, não podemos nos contentar
com apenas a descrição dos fenômenos violentos que se nos aparecem
diariamente. Independente das diferentes facetas da violência, cabe-nos,
ainda, perguntar: Por quê a violência? Ou, por quê há violência? Como
controlar tudo isso, considerando que, em uma dimensão alteritária,
sobressai-se os efeitos avassaladores dos sistemas que nos sufocam e
incidem nas relações?
*Aldo Reis é palestrante, empresário e escritor. Pesquisador
nas áreas de antropologia, ética, fenomenologia e educação. Bacharel em
Filosofia pela PUC Minas. Estudou Licenciatura em Filosofia Eclesiástica
e Teologia pela Universidad de Navarra, Espanha. Ex-mestrando em
Educação pela PUC Goiás.
Disponível em: http://domtotal.com/noticia/1232825/2018/02/a-violencia-como-descaracterizacao-do-humano-uma-perspectiva-antropologica/
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