Este ano, o tema da Campanha da Fraternidade é 'Fraternidade e Superação da violência',
que tal aproveitar essa oportunidade e rever seus hábitos e
comportamentos para com a realidade LGBT?
Como ages ou agiria se seu filho levasse um amigo homossexual para dormir em sua casa em um final de semana?
(Reprodução/ Pixabay)
Por João Elton de Jesus*
K.
Silva, 28 anos, foi jogada por ocupantes de um carro nas proximidades
de um lixão amordaçada com os pés e as mãos amarrados. Foi assassinada
com 27 tiros, a maioria atingiu a cabeça e deixou o rosto dela
desfigurado. Waldemir, morto dentro da sua própria residência, foi
encontrado com uma perfuração de faca na região do tórax.
Marcelo,
12 anos, apanha do pai frequentemente por faltar às aulas, todos os
dias sofre bullying de seus amigos que o julgam diferente dos demais
meninos. Tamires, estudante de Design Gráfico, foi levada ao hospital
recentemente, tentou suicidar-se tomando dezenas de comprimidos
antidepressivos.
Mortes e sofrimentos absurdos, não? Mas saiba que
situações como essas acontecem a todo momento no Brasil. Somente em
2017, foram 445 mortes, o maior índice entre todos os países do mundo.
(Mas pode ter certeza que a maioria de casos como esses não são
registrados)
No entanto, além de serem vítimas de mortes cruéis,
essas pessoas têm outro ponto em comum, todas morreram ou sofrem pelo
fato de serem pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis e
transexuais - LGBTs, ou seja, foram vítimas por não se enquadrarem nas
normas e morais heteronormativas de nossa época.
Você pode se
lamentar com isso, afinal ninguém deveria sofrer ou morrer dessa maneira
por puro preconceito pessoal ou social. Apesar de lamentável, esses
dados não lhe pesa tanto, pois afinal, você não tem nada a ver com isso
(ou tem?!), não esteve presente (ou esteve?!), e não foi culpado por
esses crimes(ou foi?!). Qual é a sua resposta?!... pode parecer
exagerado, mas cada um de nós, certamente todos nós (inclusive muitas
pessoas LGBTs), trazemos de alguma maneira o sangue dessas pessoas em
nossas mãos...
Manchamos nossas mãos de sangue quando afirmamos
que azul é cor de homem e rosa de mulher; que há brinquedos de menina e
brinquedos de menino; que moleque tem que ser pegador e garota,
recatada; que João tem que gostar de Maria e Maria tem que gostar de
João.
Já imaginou como fica a mente e o coração dos Pedros,
Brunos, Amandas, Carolines que não se enquadram nesse estereótipo
macho/fêmea heteronormativo?! ... "Será que sou monstro? Por que sou
diferente? Estou doente? Nasci para sofrer", são os fantasmas que
assombram essas pessoas.
Muitos entram em depressão, se escondem,
tiram a própria vida (que para muitos não tem valor), não aguentam a
pressão. Afinal é muito pesado ver o pai e o irmão rindo ou tirando
sarro de uma pessoa LGBT retratada de forma estereotipada e
preconceituosa na TV. Não é fácil, seguir uma religião cujos seguidores
dizem que se você for você mesmo será então um pecador, pecadora, que
arderá no inferno e não pode nem mesmo participar da santa ceia que o
próprio Deus convidou a todos, mas que o homem restringiu a você porque
te considera não digno.
Aqueles que assumem-se como são, como
criados com amor sendo imagem e semelhança de Deus, que não suportam
viver na hipocrisia e na mentira (como muitos que dizem-se corretos
vivem), assumem também todos os riscos e eles são grandes: são expulsos
de casa, violentados por “amigos” e familiares (“Para que se corrijam!” -
Dizem eles). São ainda mais vítimas do desemprego, da falta de saúde
específica para sua realidade e dificuldades na educação (comunidades
educativas preconceituosas e intolerantes). Têm que batalhar em dobro,
dez vezes mais, para se destacar frente aos “normais” e assim tentar
conquistar a dignidade que lhes foi tirada.
Injusto, não? Mas
pense na sua responsabilidade em tudo isso. Esse é o objetivo desse
texto. Ainda que ache que não tem a intenção de fazer o mal a essas
PESSOAS, que não se considere preconceituoso... como ages ou agiria se
seu filho levasse um amigo homossexual para dormir em sua casa em um
final de semana? (um amigo, eu disse)... como se sentiria se um grupo de
travestis se sentasse no mesmo banco que a sua família na igreja? O que
pensaria se uma pessoa transexual respondesse ao anúncio de babá para
seu querido filho que você anunciou na internet? Pense, reflita, reze,
se quiser... mas seja franco com os seus sentimentos...
Não quero
te julgar, nem te condenar. (Não repetirei o que fazem com LGBTs a todo
momento). Acredito que você é uma boa pessoa... você cresceu e aprendeu a
ver o mundo desse jeito. Você acredita que está fazendo o melhor para
seu filho, sua filha, para essa sociedade (que dizem por aí estar cada
vez pior). O que te peço é que reflita as suas ações e repense suas
atitudes, até aquelas que parecem bobas. Para quem já está ferido, o que
é tolo para alguns, tona-se mais forte do que uma apunhalada.
Este
ano, o tema da Campanha da Fraternidade é “Fraternidade e Superação da
violência”, que tal aproveitar essa oportunidade e rever seus hábitos e
comportamentos para com a realidade LGBT?
RESPEITE as lésbicas e os gays.
CONVERSE com as travestis, transexuais, transgêneros, respeite a história que cada um traz em seus rostos e suas narrativas.
ABRACE sua filha lésbica, seu parente trans, seu primo, irmã, gay. Diga que o/a AMA.
MARQUE POSITIVAMENTE a VIDA dessa pessoa.
EVITE
comentários, piadas, apelidos preconceituosos, pense que uma criança
inocente pode estar te escutando e que suas palavras ou gestos podem
sangrar ainda mais uma ferida dolorida.
O Lema da Campanha da
Fraternidade é “Vós sois todos Irmãos”, que possamos concretizar essa
frase tal como faz o Papa Francisco que pede desculpas aos LGBTs pelo
mal que fazemos e diz 'Se a pessoa é gay, procura a Deus e tem boa
vontade, quem sou eu para julgá-la?”.
*João Elton de Jesus é graduado em administração pela Faculdade
Anhanguera, Licenciatura em Filosofia e Especialização em Juventude no
mundo Contemporâneo pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia
-FAJE. Atualmente coordena o Programa de Voluntariado Universitário da
Universidade Católica do Pernambuco - Unicap. Pesquisador nas áreas de
juventude, gênero e corporeidade. Religioso Jesuíta.
Disponível em: http://domtotal.com/noticia/1234593/2018/02/chega-de-violencia-contra-lgbts/
Nenhum comentário:
Postar um comentário