Os índices de violência são mesmo alarmantes e demonstram uma sociedade com laços de sociabilidade frágeis.
A violência cultural faz com que nossa sociedade não reconheça como violência muitas situações de agressão.
(Reprodução/ Pixabay)
Por Frederico Santana Rick*
A
Campanha da Fraternidade da CNBB ocorreu em âmbito nacional pela
primeira vez na Quaresma de 1964. O projeto carrega o espírito do
impulso renovador do Concilio Vaticano II em andamento na época. Duas
marcas que nesse momento histórico se atualizam. Agora, como naquele
momento, assistimos à diminuição do espaço democrático na sociedade
brasileira, colocando em ameaça até o mais comezinho dos elementos da
democracia formal, eleições livres. Por outro lado, se naquele momento o
Concílio Vaticano II trouxe novos ares, assistimos hoje ao espírito
renovador que Papa Francisco traz a humanidade e a igreja.
E
ainda, coincidentemente ou não, temos como tema da CF desse ano
“Fraternidade e Superação da Violência” e lema “Vós sois todos irmãos”
(Mt 23,8). Bela escolha da CNBB e dos bispos do Brasil. O objetivo é
promover a reflexão e iniciativas para superarmos a violência,
promovendo a cultura da paz e a justiça à luz do Evangelho. Não é pouca
coisa. O tema é atual, complexo e desafiante e, sobretudo, é do
interesse do conjunto da sociedade.
O texto base da CF 2018,
publicado pela CNBB, não traz respostas fáceis ou simplistas para a
problemática da superação da violência. Sustenta posições avançadas.
Muito longe de identificar a violência apenas como crime e tráfico,
incorpora na análise a dimensão estrutural, cultural e direta. Nesses
marcos, o que a grande maioria da população percebe ou é levada a
entender como violência, não chega a ser a décima parte da violência
presente na sociedade brasileira.
Uma sociedade de muitas violências
Os
índices de violência são mesmo alarmantes e demonstram uma sociedade
com laços de sociabilidade frágeis, com baixo índice de solidariedade
entre classes, naturalização de graves desigualdades sociais e
banalização da violação dos direitos humanos de grande parte da
população. Uma realidade resultado da formação econômica e social do
povo brasileiro marcada pela escravidão, que, mudando de roupagem ao
longo das décadas, mantém intacta uma estrutura de violência, exclusão e
dominação.
Temos 3% da população mundial e no entanto somos
responsáveis por 13% dos assassinatos no planeta. Os homicídios são a
principal causa de mortes entre os jovens de 15 a 24 anos no Brasil.
Entre 1980 e 2014, o número de homicídios por arma de fogo cresceu
592,8%. Uma realidade muito distante da imagem bastante difundida de um
país pacífico, ordeiro e feliz. No campo, os índices são igualmente
alarmantes e têm raízes no Brasil colônia, latifundiária e escravocrata,
responsável pela chacina de indígenas e de africanos escravizados. Um
passado que conformou elites acostumadas a mandar aplicar castigos e
torturas, e a ver o outro como escravo-objeto.
A violência direta
ganha maior espaço no noticiário, mas não é ela a que mais agride e mata
o povo brasileiro. São muitas as violências contínuas, que causam danos
a vários segmentos da sociedade, sobretudo aos pobres, aos
trabalhadores, aos negros, às mulheres, à juventude e aos LGBTs, para
ficar apenas em alguns.
São muitas vítimas dos mesmos processos
estruturantes, que reproduzem uma realidade de negação do acesso de
amplas maiorias ao trabalho formal, à moradia, à educação, à saúde, ao
alimento em qualidade e quantidade adequadas, ao saneamento, aos bens
culturais. Graves situações de violência e desigualdade de oportunidades
culturalmente legitimadas, silenciadas e negligenciadas. Condenando
dezenas de milhares de brasileiros a situações degradantes. Essa é a
situação das mulheres, que são 51% da população. São agredidas em 72%
dos casos dentro da própria casa, 43% dos casos o agressor é o parceiro
ou ex-parceiro. Na grande maioria dos casos o machismo e o sentimento de
posse que ele engendra está por traz das agressões, e atinge sobretudo
mulheres jovens, que também são as principais vítimas do tráfico de
pessoas, 75%, segundo a ONU Mulheres.
As crianças são grandes
vítimas do nosso sistema econômico que mata 17 mil crianças e jovens
todos os dias no mundo, mantendo 1 bilhão de crianças na pobreza. Essa
situação lhe retira oportunidades para seu desenvolvimento, perpetuando o
ciclo de pobreza. No Brasil, 42% das crianças e adolescentes (17,8
milhões) vivem abaixo da linha da pobreza. Jovens que terão menor
escolaridade e entrada em média aos 14 anos no mercado de trabalho,
prejudicando seu presente e seu futuro. 60% dos trabalhadores
brasileiros começaram a trabalhar com menos de 15 anos de idade. Esse
índice é bem maior entre os pardos e pretos.
Não por um acaso o
Brasil tem 650 mil presos, a terceira maior população carcerária do
mundo, sendo que 40% não tem sentença definitiva, e mesmo sendo “presos
provisórios”, vivem em masmorras. Nada mais distante dos princípios da
Constituição Brasileira que apregoa a recuperação e a reintegração, a
realidade é o confinamento em condições sub-humanas. Para garantir a
situação sobre controle, as classes dominantes produziram uma força de
segurança pública que se volta contra seu povo, ao invés de serem
promotoras do exercício da democracia, mediadora de conflitos e
responsável pela preservação da vida. Policiais promotores da cultura da
paz é um clamor de nosso povo. Nossa polícia não só mata, como morre em
grande quantidade, e esse número vem aumentando.
Por sua vez, a
violência cultural faz com que nossa sociedade não reconheça como
violência muitas situações de agressão. Legitima ações violentas contra
segmentos específicos. Responsabiliza o agredido pela agressão. Tornando
a violência direta, presença tolerada e constante na sociedade.
Culpa-se o drogado, o jovem, a mulher, seja pela roupa, pela atitude,
pelo local onde estava, sendo a violência vista como punição por um
comportamento desviante. Assistimos à naturalização de visões que
inferiorizam as amplas maiorias do povo brasileiro.
Tendo em vista
esses múltiplos determinantes da violência, a perpetuação das
estruturas em nossa sociedade que a alimenta e preserva, recai, também
no exercício da política e do sistema de justiça brasileiro. Em tais
espaços de poder, as decisões constantemente ao longo de nossa história,
tem legitimado a prevalência dos interesses do dinheiro sobre a
dignidade do ser humano. É com muita naturalidade que a casta de
políticos e juízes, por exemplo, defendem salários e regalias que mantém
seu padrão de vida muitíssimo acima das condições de vida da ampla
maioria da população. Ao mesmo tempo, decretam todos os anos, ordens de
despejo de centenas de milhares de famílias pobres sem casa e sem teto.
O
quarto poder, os meios de comunicação empresariais, são igualmente
letais. Programas de TV incitam o ódio e a se fazer justiça com as
próprias mãos. A paz é colocada como sinônimo de eliminação do outro.
Saídas fáceis que escondem as raízes da violência, promovem o
sensacionalismo e o punitivismo, agindo de forma violenta e dificultando
a construção de uma cultura de paz. Deixa-se de mostrar visões críticas
à extrema concentração de renda no mundo. Mostrar o mundo globalizado e
excludente que vivemos. Nosso sistema econômico produz desigualdade e a
riqueza está extremamente concentrada. 62 pessoas no mundo detêm a
mesma riqueza que a metade mais pobre da população mundial, 3,8 bilhões
de pessoas. Já o 1% mais rico no mundo, detém 99% de todo o dinheiro,
sobrando 1% da riqueza para distribuir para 99% da população mundial.
Caminhos para superação da violência
Podemos
superar a violência e construir uma cultura da paz. Temos aprendizados e
exemplos pedagógicos de conversão pessoal, comunitária e de sociedade.
Sabemos que, para a superação, nossa sociedade precisará da atitude
firme e decidida do Estado, implementando políticas públicas que
eliminem a enorme desigualdade econômica, política, social e cultural
que fratura o povo brasileiro. A ausência até o momento dessas políticas
distributivistas demonstra nossa incapacidade de romper com o passado
excludente, seja por fortes resistências da classe dominante, seja por
incapacidade das classes baixas de acumular força social para
implementar um projeto popular. A superação da violência na sociedade
brasileira passa por nos posicionarmos diante dessa história.
Superar
a violência no Brasil implica nesse momento na construção de um novo
pacto democrático que restabeleça a democracia no país. É tempo de
plantar. O canteiro é fértil, temos uma tradição de pastoral social,
ceb´s, grupos de fé e política, movimentos populares, trabalhos e obras
sociais. E os ares são bons, saudemos Papa Francisco e seu compromisso
com os pobres e a casa comum, saudemos os mais de 50 anos do Concílio
Vaticano II, e os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos
de 1948. Temos proposta e projeto. Nos alegremos com as iniciativas de
construção de unidade das forças democráticas desse país, e iniciativas
de mobilização social como Congresso do Povo, o Grito dos Excluídos e a
Campanha da Fraternidade. Superar a violência no Brasil nesse momento,
como já pronunciou a CNBB, significa lutar contra a “reforma” da
Previdência.
*Frederico Santana Rick é mestre em ciências sociais pela PUC
Minas e agente de pastoral social.
Disponível em: http://domtotal.com/noticia/1232786/2018/02/fraternidade-como-caminho-para-superacao-da-violencia-no-brasil/
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