Filósofa norte-americana é uma das maiores referências na teoria queer, e está no Brasil para falar sobre política e debater os 'fins da democracia'.
Butler, de 61 anos, é autora de 'Problemas de Gênero' (1990) e de 'Caminhos Divergentes' (2017).
"Quando as pessoas temem o seu futuro econômico, elas geralmente se voltam para políticas conservadoras."
A frase acima é da escritora, filósofa,
lésbica e professora norte-americana Judith Butler, que, aos 61 anos, é
referência em estudos sobre a teoria de gênero e também sobre a
violência provocada pelo Estado. Para ela, o futuro de uma sociedade
plural e tolerante depende do fortalecimento da democracia. "É uma luta
constante", disse em entrevista por e-mail ao HuffPost Brasil. "[A democracia] é algo para o qual as pessoas são obrigadas a lutar o tempo todo".
Em sua segunda visita ao Brasil, Butler
-- que tem mais de 15 livros publicados e é doutora em Filosofia pela
Universidade de Yale e professora na Universidade da Califórnia em
Berkeley -- participa, nesta segunda-feira (6), de uma conferência na
Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e lança seu novo livro Caminhos Divergentes - Judaicidade e crítica ao sionismo (Boitempo, 2017). Ela também fala amanhã, terça-feira (7), no evento "Os fins da democracia",
organizado pelo Convênio Internacional de Programas de Teoria Crítica
(UC Berkeley) e Departamento de Filosofia da USP que acontece no Sesc
Pompeia.
"Quando as pessoas temem o seu futuro
econômico, elas geralmente se voltam para políticas conservadoras",
afirmou Butler, sem citar as críticas e a movimentação sobre sua vinda
ao País em entrevista. "Agora precisamos de um movimento que tenha
mulheres e minorias como membros iguais da liderança e que mova o
partido democrático para a esquerda ou inicie um novo movimento",
destacou.
A filósofa chega ao Brasil cercada de polêmica e em meio a uma "guerra cultural" orquestrada por movimentos conservadores nas redes sociais, como o MBL (Movimento Brasil Livre). Sua primeira visita ao País, em 2015, também foi alvo de protestos, mas desta vez, as críticas foram amplificadas e um boicote a ela e ao Sesc foi organizado.
A justificativa de uma petição online
que pede o cancelamento da palestra é de que a escritora propõe "a
desconstrução da identidade humana pela desconstrução da sexualidade" e
que Butler participará de um "simpósio comunista" que "mascara um
objetivo político marxista".
Judith é, de fato, um nome de extrema
importância nos estudos de gênero. Ela introduziu o conceito de
"performatividade", que aponta o gênero como uma construção
performativa, ajudando a pensar a identidade para além das diferenças
biológicas, mas, sim, como uma construção cultural.
Porém, estes estudos não são os únicos campos explorado pela autora.
Inclusive, não será sobre esse assunto que ela falará no Brasil.
"É crucial que resistamos às forças da censura que prejudicam a
possibilidade de viver em uma democracia igualmente comprometida com a
liberdade e a igualdade", completou, pontuando que este é um dos tópicos
que será discutido no evento "Os fins da democracia".
Para Butler, o crescimento de distorções
provocadas por movimentos conservadores e do chamado "populismo de
direita" ao redor do mundo, em especial, na era Trump, leva ao do desprezo pela democracia constitucional e pelo direito internacional.
Partindo de uma perspectiva
norte-americana, a filósofa afirmou que é necessário traçar um caminho
que vá na contramão do conservadorismo e, para isso, é preciso fazer novos aliados e se afastar de "problemas únicos que nos interessam" individualmente:
"Nos EUA, temos de fazer novos aliados,
afastar-nos dos problemas únicos que nos interessam e desenvolver um
movimento mais forte para uma sociedade democrática em que a radical
disparidade entre ricos e pobres possa ser superada, em que o racismo
possa ser derrotado, e onde os direitos das mulheres e os movimentos
LGBTQI sejam entendidos como cruciais para a realização de uma sociedade
mais igualitária e justa."
Em Caminhos Divergentes, Butler parte de uma urgência pessoal para retomar a ideia de que é possível lapidar um novo comportamento social rumo a uma solução, relacionada a questões da palestina em relação às tradições diaspóricas judaicas. A filósofa usa s posições filosóficas judaicas para articular uma crítica do sionismo político e suas práticas de violência estatal ilegítima, nacionalismo e racismo patrocinado pelo Estado. A escritora tem outros dois livros publicados e traduzidos para o português: Problemas de Gênero - Feminismo e subversão da identidade e Questõe de Guerra - Quando a vida é passível de luto?.
Saindo da teoria e partindo para a
prática, Butler afirma que é preciso "desenvolver uma ideia mais forte
de justiça econômica, igualdade e empoderamento racial e de gênero, e uma resistência ao poder autoritário em que algumas pessoas encontram conforto e segurança":
"Para fazer isso, temos que entender as formas de sofrimento econômico e a crescente ansiedade política com que as pessoas vivem, atraí-las para onde sofrem e construir uma visão complexa e esperançosa para atrair as pessoas".
E finaliza: "A democracia é uma luta
constante, como disse Chantal Mouffe [cientista política belga], mas
também é algo para o qual as pessoas são obrigadas a lutar o tempo
todo".
Disponível em: http://www.huffpostbrasil.com/2017/11/06/judith-butler-as-pessoas-encontram-conforto-e-seguranca-no-conservadorismo_a_23268017/?ncid=fcbklnkbrhpmg00000004
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