A inacreditável rotina de uma "professora-táxi" é um alerta sobre condições de trabalho docente.
Cinco da manhã de uma segunda-feira. Na pequena Carandaí, cidade horticultora a 136 quilômetros de Belo Horizonte, à beira da BR-040, Dayana Vieira de Rezende Silva, professora, 32 anos, pula da cama para mais uma semana de trabalho. Cena comum nos lares dos docentes brasileiros, não fosse uma particularidade: até o fim da semana, ela vai lecionar em sete escolas de três cidades diferentes. São 41 turmas, da Educação Infantil à Educação de Jovens e Adultos (EJA). Ao todo, Dayana tem quase mil alunos.
Os números impressionam, assim como a metódica organização da professora para dar conta de tudo. "Arrumo minhas coisas no domingo. Tenho uma bolsa para cada cidade, além de sacolas extras com roupas e comida. Deixo tudo no porta- malas do carro", conta à equipe de NOVA ESCOLA, que acompanhou de perto a rotina dela.
Dayana é um caso extremo do grupo de educadores que trabalham em três ou mais escolas. São conhecidos como "professores-táxi", em referência ao grande número de viagens que precisam fazer ao longo do dia. Segundo dados do Censo da Educação Básica de 2013, esses profissionais correspondem a 4% dos docentes brasileiros. Parece pouco, mas estamos falando de mais de 84 mil pessoas que se desdobram entre uma escola e outra - e outra e mais outras.
Dentro dessa realidade, há profissionais que vivenciam diferentes regimes de trabalho. Alguns estão vinculados a uma única rede, mas, para cumprir a carga horária, precisam passar por várias instituições - situação recorrente entre professores de disciplinas que têm pouco espaço na grade. É o caso de Felipe Nunes, 30 anos, que leciona Educação Física na rede estadual de São Paulo. "Eu pretendia trabalhar em apenas uma escola, mas diminuíram o número de turmas que atendia. Fui obrigado a dar aula em outros dois locais na mesma região", conta ele. Mesmo atuando em instituições relativamente próximas, todas na zona sul da capital paulista, Nunes precisa usar o próprio carro para chegar em tempo. "Meus horários são picados: dou três ou quatro aulas em uma escola e, na mesma manhã, já preciso ir a outra. Se eu não tivesse carro, não conseguiria chegar." O veículo é particular e os custos são pagos pelo educador, que não recebe ajuda extra para manutenção ou seguro.
Há também profissionais vinculados a mais de uma rede de ensino. Em geral, são educadores que buscam opções para complementar a renda e driblar a baixa remuneração. Dayana se encaixa nesse segundo perfil. Morando no interior de Minas Gerais, a professora de Arte é docente concursada em dois municípios e atua na rede particular. "Estudei Artes Plásticas em São Paulo, pois não havia esse curso em Carandaí, onde nasci. Quando me formei, voltei para casa e prestei concurso para as cidades próximas", conta ela. "Passei em Ouro Branco e comecei a lecionar. Fui chamada, depois, para a rede municipal de Conselheiro Lafaiete. Aceitei porque o salário adicional me ajudaria a conseguir minha independência financeira. Recentemente, ampliei meu escopo de trabalho ao assumir turmas de EJA pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), na cidade de Congonhas", conta a docente.
Disponível em: http://revistaescola.abril.com.br/politicas-publicas/carreira-sete-escolas-41-turmas-quase-mil-alunos-865220.shtml?utm_source=redesabril_novaescola&utm_medium=facebook&utm_campaign=mat%C3%A9ria&utm_content=link#ad-image-0
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