O número de cearenses convertidos ao Islamismo tem aumentado nos últimos anos, acompanhando a tendência de crescimento no Brasil. Além disso, o Estado também passou a receber muitos estrangeiros muçulmanos. O último censo geral, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2010, afirma que o Ceará possuía na época 141 muçulmanos. Desses, 130 são de Fortaleza e 11 do município de Campos Sales.
De lá para cá, o número só tem aumentado. O cearense responsável pelo Centro Cultural Beneficente Islâmico do Ceará, Abdul Rahman, relata que a comunidade conta, atualmente, com 70 membros, que frequentam com alguma frequência o Centro e a sala de orações, conhecida também como mussalla. Mas, de acordo com ele, o número pode aumentar em períodos como o Ramadã, quando a comunidade se reúne para quebrar o jejum após o pôr do sol. Abdul Rahman também esclarece que há muçulmanos no Interior. “Nós temos irmãos quixadaenses, irmãos que moram no Eusébio e temos aqueles que moram em Juazeiro do Norte”, afirma.
Além disso, o Estado passou a receber muitos muçulmanos dos países africanos, após a instalação da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), localizada em Redenção..
Ao ser questionado sobre as atividades prioritariamente desenvolvidas pelos muçulmanos no Ceará, Abdul Rahman afirma que há muitos estudantes e professores. “Existem professores universitários, conheço alguns que estudam mestrado aqui no Estado. Alguns deles são consultores em agronegócio. Temos comerciantes de Senegal. Há mulheres universitárias, professoras e enfermeiras”, detalha.
Uma matéria publicada pelo jornal francês Le Monde, em abril deste ano, mostra o quotidiano dos praticantes no país, sendo a maioria deles brasileiros convertidos. De acordo com a reportagem, uma mesquita de São Paulo chega a converter entre quatro e seis brasileiros por semana. Mesmo não havendo dados exatos, o Le Monde afirma que cerca de um milhão de muçulmanos vivem no Brasil atualmente.
Apesar do aumento do número de praticantes no país, o preconceito ainda impera. Simples ações – e principalmente no caso das mulheres que usam o véu -, como andar nas ruas, pegar um ônibus e tomar banho de mar despertam olhares das pessoas. “Preconceito existe, mas é uma coisa que a gente tem que enfrentar. É uma coisa simples se você tem a convicção, se você tem a fé. Você deve dizer boas palavras para as pessoas. Eu não posso mudar o coração de ninguém, mas Deus atende a súplica do suplicante. Ele não fala se é do muçulmano, do cristão, do judeu, mas de todo o ser humano e ele conduz a verdade aqueles que buscaram”, afirma Abdul Rahman, que enfrentou o primeiro preconceito dentro de casa, vindo dos familiares.
No entanto, há regiões do país que conseguem conviver sem problemas com o Islã. O doutorando em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Valberth Veras, cuja tese é sobre o Islamismo em Foz do Iguaçu, explica que não vê preconceito na região. “Conversei com muita gente e observei vários lugares, públicos e privados, e o contexto de Foz do Iguaçu é de bastante aceitação da prática de vida muçulmana. Mulheres muçulmanas andam no supermercado com véu e roupa muçulmana sem nenhum constrangimento, elas passam despercebidas no meio das brasileiras não-muçulmanas. A sociedade de Foz já está bem acostumada com a presença islâmica e não estranha mais ouvir alguém falando em árabe ao seu lado”, relata Valberth.
A criação do Centro Cultural Beneficente Islâmico do Ceará foi uma maneira de fortalecer a comunidade aqui no Estado e ser uma entidade com a finalidade de informar melhor a sociedade sobre a crença islâmica. Durante a Copa do Mundo, por exemplo, os membros da comunidade distribuíram livros sobre o Islã na Praça do Ferreira, no Centro de Fortaleza, como uma forma de diminuir a intolerância religiosa.
“Nós não podemos mudar o coração das pessoas, nós temos consciência disso. Nós podemos mostrar para elas algumas coisas. Nós podemos recomendá-las que elas conheçam as próprias religiões, para que elas vejam o que tem do homem e o que tem de Deus. Porque o que distorce as religiões são os seres humanos. Nosso criador ele manda uma mensagem, já mandou várias e as pessoas deturpam muito aquilo que foi revelado”, explica Abdul Rahman.
Para o doutorando Valberth, é necessário educar a população, com projetos nas escolas e esclarecimentos no meio universitário, com a finalidade de desconstruir a imagem deturpada sobre o Islamismo, de que é uma religião terrorista. O conhecimento é a base para que haja o convívio com culturas distintas, como afirma a professora universitária e especialista em religião, Júlia Miranda.
“A base é o conhecimento, coisa aparentemente óbvia, mas que tem se mostrado difícil quando – e esse é o caso em algumas comunidades católicas por exemplo – é ensinado aos jovens que estudar pode colocar a fé em perigo. Quanto mais conheço o contexto de produção das ideias, os seus formuladores e divulgadores, “o outro” a que eles se opõem ou que apoiam, seus argumentos e motivações, mais e melhor eu aceito e convivo com os diferentes”, afirma a professora.
ALINE CONDE
Repórter
Disponível em: http://www.verdinha.com.br/noticias/17274/cresce-numero-de-cearenses-convertidos-ao-islamismo-religiao-tenta-combater-intolerancia/?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=links-02-07-2015
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