A opressão social pode se dar inclusive por meio de canais
institucionais comumente utilizados para a proteção de direitos
fundamentais.
Monitoramento de redes de comunicação nada mais é do que a institucionalização privada da censura e disciplina mental do indivíduo. (Reuters)
Por Marcelo Kokke*
A construção constitucional, ao tratar dos direitos fundamentais,
historicamente concentrou suas atenções na figura do Estado como fonte
de ameaça a direitos e afirmação do indivíduo. Um dos fundamentos
centrais é justamente o poderio de repreensão de fontes de manifestação
da individualidade fora de uma requerida neutralidade. O Estado como um
agente que fixa níveis de hierarquia da disciplina mental e corporal do
ser humano em sua liberdade sempre foi visto como uma ameaça constante à
emancipação. Cabe ao indivíduo determinar quais são os valores
positivos e negativos em sua vida, sem que seja tutelado pelo poder
público na fixação de uma hierarquia de valores próprios do que seja uma
boa vida. Não pode o Estado determinar previamente padrões de
manifestação ou expressão do indivíduo em suas opiniões e ideias.
Mas e quando a situação de cerceamento, de fixação de tutela ou
hierarquia não vem do Estado, mas sim da própria sociedade? O risco de
ameaça à autonomia, à emancipação não está somente em atuações do
Estado. A sociedade pode assumir posturas opressivas de silenciamento,
tutela e tentativa de substituir o próprio indivíduo em sua determinação
valores positivos ou negativos no curso de sua vida. Tentativas de
controlar as redes sociais, aplicando mascaradamente mecanismos de
controle prévio e filtro seletivo de informações não são nada menos do
que subjugação da afirmação da liberdade, da autonomia do ser humano.
John Stuart Mill, no clássico Sobre a Liberdade, pondera que a própria
sociedade pode se tornar tirana, uma sociedade que tenta suplantar os
indivíduos que a compõem, sendo que “os meios para tiranizar não se
restringem aos atos que possa cometer pelas mãos de seus funcionários
políticos”1.
A opressão social manifesta-se quando há uma intrusão de controle
sobre a informação, a construção e a manifestação de pensamento. A
opressão social pode se dar inclusive por meio de canais institucionais
comumente utilizados para a proteção de direitos fundamentais. É o que
ocorre quando o Poder Judiciário é acionado para sustentar tentativas de
controle e disciplina mentais. O Superior Tribunal de Justiça decidiu
recentemente o Recurso Especial 1.641.155, no qual se buscava impor ao
Facebook a obrigação de efetivar um monitoramento prévio de informações
de postagens e publicações por parte de seus usuários.
Um apresentador de programa televisivo, em razão de rompimento
contratual, passou a ser hostilizado, segundo relata, por usuários da
rede social de comunicação. Nesse contexto, ajuizou ação pretendendo que
o Facebook não só retirasse, mas também impedisse publicações ou
manifestações que pudessem ser consideradas a ele contrárias.
Inicialmente o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo obrigou a rede
social a monitorar perfis que pudessem conter ou se manifestar
desfavoravelmente ao autor, sob pena de multa. O STJ reformou a decisão,
argumentando inclusive uma releitura constitucional de direitos
fundamentais para considerar que “o controle editorial prévio do
conteúdo das informações se equipara à quebra do sigilo da
correspondência e das comunicações, vedada pelo art. 5º, XII, da CF/88.
Não bastasse isso, a avaliação prévia do conteúdo de todas as
informações inseridas na web eliminaria um dos maiores atrativos da
internet, que é a transmissão de dados em tempo real”.
Controle prévio é mecanismo de cerceamento, monitoramento de redes de
comunicação nada mais é do que a institucionalização privada da censura
e disciplina mental do indivíduo. Isto não significa um vazio de
responsabilidade, pelo contrário, significa uma liberdade responsável e
não tutelada. A posição jurisprudencial construída pelo STJ consolida-se
nas seguintes linhas de compreensão: “(i) não respondem objetivamente
pela inserção no site, por terceiros, de informações ilegais; (ii) não
podem ser obrigados a exercer um controle prévio do conteúdo das
informações postadas no site por seus usuários; (iii) devem, assim que
tiverem conhecimento inequívoco da existência de dados ilegais no site,
removê-los imediatamente, sob pena de responderem pelos danos
respectivos; (iv) devem manter um sistema minimamente eficaz de
identificação de seus usuários, cuja efetividade será avaliada caso a
caso”2.
Referências:
1) MILL, John Stuart. Sobre a liberdade. Trad. Paulo Geiger. Introdução Alan Ryan. Penguin Companhia: São Paulo, 2017, p. 75
2) STJ – 3ª Turma. PROCESSO ELETRÔNICO REsp 1.641.155 / SP. Números
Origem: 10038526520148260344 20787777720148260000. PAUTA: 13/06/2017
JULGADO: 13/06/2017.
*Marcelo Kokke é procurador federal da Advocacia-Geral da
União, professor de Direito Constitucional da Dom Helder Escola de
Direito, mestre e doutor em Direito, especialista em Processo
Constitucional, membro do Instituto Brasileiro de Advocacia Pública,
professor colaborador da Escola da Advocacia-Geral da União Membro da
Associação dos Professores de Direito Ambiental do Brasil (APRODAB).
Disponível em: http://domtotal.com/noticia/1180045/2017/08/monitoramento-previo-e-censura-privada/
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