Julio Lancellottifoi atacado com mensagens de ‘morte ao padreco’ e ‘mandem esse padre para o inferno’. Ele trabalha há mais de 30 anos com a população marginalizada de São Paulo.
Padre Júlio Lancellotti
Há cerca de três semanas, internautas começaram a propagar
ofensas e ameaças, inclusive de morte, ao Padre Julio Lancellotti em
comunidades, grupos e na página do Facebook
do religioso. Em uma delas, o agressor, um advogado, segundo o padre,
diz “morte ao padreco”. Um outro comentarista diz “Tem que começar
mandando esse padre pro inferno, e depois seus seguidores…”, sendo
saudado com aplausos virtuais.
Lancellotti
tem 69 anos, dos quais quase 34 dedicados à causa dos moradores de rua e
outros grupos marginalizados. Pároco da Igreja de São Miguel Arcanjo,
na Mooca, região central e vigário episcopal para a população de rua da
Arquidiocese de São Paulo, ele atribuiu as ameaças ao tipo de trabalho
que desenvolve e à crescente onda de intolerância dos dias atuais. “O
discurso de ódio sempre existiu. Mas esses intolerantes, antes, ficavam
restritos, não se impunham. Nesse momento que estamos vivendo, sinto que
essas pessoas se sentem livres, não tem mais o menor pudor e se sentem
legitimadas para falar o que bem entenderem”, afirma o padre.
Para ele, o fato de trabalhar com população de rua é um dos
grandes causadores desse ódio. “Os moradores de rua aumentaram, isso é
fato. E são diversas causas, como o desemprego,
a inadimplência, essas coisas. Tem muita gente na rua e em condições de
rua e a intolerância, que sempre existiu, fica mais evidente por causa
dessa convivência em todo lugar: parques, áreas públicas, ruas”,
analisa.
Ameaças
Lancellotti, com a orientação das advogadas Valdênia Paulino
Lanfranchi e Juliana Hashimoto Bertin, enviou um ofício nesta
segunda-feira (19 de março) ao procurador-geral do Ministério Público de
São Paulo, Walter Paulo Sabella, e ao subprocurador de Políticas
Criminais e Institucionais, Mário Luiz Sarrubbo, informando a respeito
das ameaças e ofensas e solicitando providências. O documento traz uma
explicação sobre quem é Padre Julio e detalha as atividades pastorais
realizadas por ele, destacando o aumento expressivo da população de rua e
a importância da luta dele para pressionar o poder público para que
olhe e assista adequadamente esse grupo vulnerável. O último censo, de
2015, fala em 16 mil pessoas, mas entidades que lidam com a causa
afirmam que já chega a 25 mil. Além disso, traz prints das ameaças que
vem sofrendo. Além dos ataques diretos, há outros que o acusam de uso de
drogas e alguns que sugerem que o padre “pegue os pedintes e coloque
para morar na igreja” ou na casa dele.
Assinam o ofício o arcebispo metropolitano de São Paulo, D.
Odilo Scherer, o bispo auxiliar de São Paulo, D. Luiz Carlos Dias e mais
de 200 outras entidades ligadas a direitos humanos e pessoas físicas
que repudiam os ataques que Lancellotti vem sofrendo.
O pároco está acostumado com pressões, especialmente da
administração municipal, que lida de maneira mais direta com a situação.
Em maio de 2015, ainda na gestão de Fernando Haddad (PT), Lancellotti denunciou repressão
e processo de “higienização social em decorrência da especulação
imobiliária”. Em setembro do ano passado, já na gestão de João Doria
(PSDB), Lancellotti voltou a denunciar a truculência
com que a GCM (Guarda Civil Metropolitana) e PM estavam lidando com a
população de rua na região da Sé, retirando pertences e promovendo
agressões com spray de pimenta. No mês seguinte, Lancellotti voltou a
criticar o prefeito tucano por causa da farinata,
uma espécie de farinha com sobras de alimentos, anunciada às pressas e
sem qualquer planejamento, como demonstrou a reportagem da Ponte.
Para Lancellotti, os ataques são motivados pelo ódio ao
pobre e à população em situação de rua e conta com uma articulação que
envolve a PM, GCM, os Conselhos Municipais de Segurança, associações de
bairro e até subprefeituras. Questionado se tem medo das ameaças, que,
por enquanto, estão apenas na esfera virtual, o padre diz que se sente
triste. “Me causa muita tristeza o que fazem com os moradores de rua.
Eles estão usando os moradores para me atingir. Eles falam cada coisa,
eles xingam, eles têm muito ódio. Ainda ontem soube que moradores de uma
região aqui do centro foram agredidos de madrugada por guardas e
policiais que diziam ‘você é amigo do padre, então? cadê ele?’. Eu
imagino que eles não vão vir até mim. No final das contas, quem sofre é
quem está na rua. São forças neoconservadoras, forças raivosas que
acabam surgindo como uma onda”, analisa.
No domingo, 25 de março, haverá uma passeata na região da
Mooca em defesa ao padre. São grupos, entidades e pessoas que estão
repudiando os ataques ao religioso. No texto de chamada para o protesto,
os organizadores definem Lancellotti como uma pessoa “que dedica a vida
à defesa dos mais pobres, pois sabe que os direitos humanos devem ser
garantidos a todos os seres humanos, não só aos ricos” e pede: “não
vamos permitir que sua trajetória de lutas e de amor seja
desrespeitada”.
Outro lado
A Ponte procurou a prefeitura de São Paulo,
bem como a Polícia Militar de São Paulo para saber qual a visão sobre
as ameaças contra Lancellotti, mas até agora não se pronunciaram. O
Ministério Público ainda não se pronunciou sobre a denúncia enviada ao
procurador-geral.
Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/22/politica/1521681847_319386.html
Nenhum comentário:
Postar um comentário