Especialistas que acompanham o problema apontam avanço das facções criminosas e negligência do Estado.
No último sábado, chacina em Fortaleza terminou com 14 mortos, sendo duas adolescentes e seis jovens com idade entre 19 e 25 anos / Sindicato dos Policiais Civis de Carreira do Estado do Ceara (Sinpol-Ce)
A capital do Ceará, Fortaleza, é uma das cidades mais violentas do Brasil. Segundo o Atlas da Violência de 2017, o município ocupa o terceiro lugar no ranking de homicídios no país, com uma taxa de 46,75 casos para cada 100 mil habitantes.
Na madrugada do último sábado (27), a cidade viveu mais um capítulo
da narrativa que hoje amedronta toda a população e mais ainda os
moradores da periferia: uma chacina em uma casa de forró no bairro
Cajazeiras terminou com 14 mortos e cerca de dez feridos. O episódio
está sendo tratado como a maior chacina da história do Ceará e tem
relação com o avanço de facções criminosas no estado.
"É uma situação muito preocupante, mas não é pontual. É uma situação
que chegou ao nível crônico", afirma a defensora pública Gina Moura, da
Rede Acolhe, setor da Defensoria Pública do Estado que está prestando
assistência jurídica e psicossocial às famílias das vítimas.
A Rede levanta uma preocupação com o crescimento da violência, em
especial nos espaços que abrigam a população mais pobre. Somente em
2017, o estado bateu recorde histórico no número de homicídios, que
chegou a 5.134 casos – um aumento de mais de 50% em relação ao ano
anterior. Em Fortaleza especificamente, o aumento foi de 96,4%.
Gina Moura destaca que as medidas relacionadas ao aparato de
segurança não têm surtido efeito nos índices de violência e que o
aumento do encarceramento no estado alimenta o crime dentro das prisões.
Para se ter uma ideia, no Instituto Penal Feminino Auri Moura Costa, o
único do estado que abriga mulheres, o número de detentas subiu de 622,
em 2016, para 950 em 2017. A unidade tem capacidade para 374 presas.
"A gente sabe que as facções se valem de situações de vulnerabilidade
e que elas nasceram e se fortalecem dentro do sistema prisional. Na
medida em que eu fortaleço a lógica do aprisionamento como solução de
redução da violência, estou alimentando um câncer, estou dando um tiro
no pé", analisa.
No espaço de um ano, o Ceará registrou oito chacinas, com 42 mortes
ao todo. A maioria dos massacres foi associada à atuação de facções
criminosas. Um dia após o ocorrido em Cajazeiras, o estado foi palco de
uma nova matança, desta vez dentro da cadeia pública do município de
Itapajé, onde uma rebelião terminou com dez mortos e oito feridos.
A chacina das Cajazeiras teve destaque na mídia internacional
e deixou em alerta as autoridades do estado. Durante o final de semana, o
governador Camilo Santana (PT) instituiu o Centro Integrado de Combate
ao Crime Organizado. O órgão reúne setores de inteligência do Ministério
Público, da Secretaria da Segurança Pública, da Secretaria da Justiça,
da Polícia Federal e do Poder Judiciário e iniciou os trabalhos já nessa
segunda-feira (29). O objetivo é atuar especialmente no combate ao
tráfico de drogas, que mobiliza as facções.
Em entrevista coletiva dada na noite dessa segunda (29), o secretário
de Segurança Pública do Estado, André Costa, admitiu que a capital vive
um contexto de muita violência, mas as primeiras manifestações dele
após a chacina na casa de forró tiveram muitas reações negativas. No
final de semana, o secretário chegou a dizer que "não há perda de
controle" por parte do governo e que o massacre seria um "caso isolado".
Além disso, Costa afirmou que mais de 50% das pessoas mortas em
chacinas seriam envolvidas com o crime.
O pesquisador Luiz Fábio, do Laboratório de Estudos da Violência
(LEC) da Universidade Federal do Ceará (UFC), questiona o posicionamento
do secretário e aponta que há negligência por parte do Estado,
especialmente com a população mais vulnerável ao tráfico.
"Ele está jogando com a opinião pública pra tentar manter algo que
sempre aconteceu no Ceará: as mortes de pessoas pobres, de jovens
pobres, negros das periferias são tratadas como mortes de bandidos,
independentemente do que essas pessoas façam", critica.
Jovens
Na engrenagem da violência, destacam-se, entre outras coisas, os
assassinatos da população mais jovem. Para se ter uma ideia, somente em
2017 houve 981 homicídios de adolescentes no estado. A chacina ocorrida
no bairro Cajazeiras é emblemática em relação ao problema: entre os 14
mortos, havia duas adolescentes, sendo uma de 15 e outra de 17 anos, e
ainda seis jovens com idade entre 19 e 25 anos.
O ouvidor de Direitos Humanos do estado, Cláudio Silva, que acompanha
casos de violação de direitos, destaca a situação de vulnerabilidade da
população jovem da periferia, que acaba virando alvo do tráfico e presa
fácil da violência.
Ele aponta a necessidade de políticas para lidar com esse público, em
especial ações de educação, assistência social e geração de emprego.
"Deve chegar nessas áreas não só a presença da polícia, mas uma
combinação de políticas para superação dessa situação", defende.
O relator do Comitê Cearense pela Prevenção dos Homicídios na
Adolescência, deputado estadual Renato Roseno (PSol), assinala ainda a
dificuldade do Estado em trabalhar a prevenção da violência. Ele destaca
que tal atuação precisaria se dar em três diferentes níveis, envolvendo
um trabalho com toda a sociedade, mas também ações focadas nos grupos
mais vulneráveis e ainda nas pessoas que já estão em situação de
violência.
"São necessários planejamento específico; regularidade nas
ações; pactuação com várias instituições, porque só existe prevenção se
for intersetorial; mas, sobretudo, o sentido de urgência e a decisão
política", finaliza.
Edição: Nina Fideles
Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2018/01/30/violencia-no-ceara-jovens-das-periferias-sao-principais-vitimas/
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