Ser
homossexual não é fácil. Primeiro enfrentamos o preconceito de nós
mesmos, quando nos percebemos diferentes. Crescemos ouvindo que somos
pecadores, satânicos, destruidores de lares, pervertidos, doentes,
pedófilos, entre outros adjetivos que nenhuma criança deveria ouvir.
Negamos ser aquilo que querem que sejamos por anos até percebermos e
aceitarmos que a nossa felicidade não é um ato egoísta mas um direito.
Enfrentamos nossos pais, que idealizaram nossa existência
com base nos próprios preconceitos. Deles ouvimos mais barbaridades,
antes, durante e depois de contarmos o nosso segredo. Desde cedo nos foi
imposto e ensinado: homem joga futebol, mulher brinca de casinha. Homem
veste azul, mulher rosa. Fomos crianças que por vezes não nos
enquadramos nesses preceitos e por vezes fingimos nos enquadrar, com
medo da rejeição dos nossos pais, da sociedade.
Por fim, percebemos e decidimos enfrentar o mundo para
sermos quem somos, nos sentirmos livres. Alguns ainda na casa dos pais,
outros quando encontram a independência. Alguns não conseguem chegar a
esta fase. Como tartarugas recém nascidas rumo ao mar após sair da
casca, nem todas chegam ao arco-íris. Muitos enfrentam nesse caminho a
depressão, o suicídio, o abandono escolar, a instabilidade emocional,
entre outras manifestações de uma psique desequilibrada, mas por conta
da homofobia interna ou externa e não pelo fato de serem gays, lésbicas,
bissexuais ou transgêneros.
A homofobia é uma doença. Ela se impõe por vezes disfarçada
de discurso religioso, por outras vezes de piadas e generalizações que
tem como objetivo nos discriminar. Todo homossexual já presenciou ou
sofreu homofobia. Todo homossexual teve medo de ser quem é. É um
estresse a mais, principalmente em um país de dificuldades como o nosso.
Se aos negros fosse dada a possibilidade de tomar uma pílula que
aliviasse o preconceito que carregam com a cor da sua pele, alguns
cederiam com certeza. Não podemos criar esta farsa. A cura gay já foi
praticada de forma desastrosa ao longo da história e por este motivo a
saúde percebeu que não era um distúrbio. Não podemos voltar a ser
cobaias de torturas.
A homofobia custa caro para a nossa existência. Para a nossa
saúde, para atingirmos o potencial em nossas vidas. Quantos e quantos
homossexuais não floresceram por conta do preconceito que tanto os
marcaram. Somos invisíveis, um tabu, um assunto que não deve ser
discutido pois as crianças estão olhando. Coitadas das crianças,
principalmente daquelas que por estratégia de sobrevivência ficam em
silêncio, esperando que o mundo mude e as aceite um dia.
Retrocesso. Uma decisão de um juiz contestando a proibição
de cura gay pela norma do Conselho Federal de Psicologia é mais do que
um retrocesso jurídico ou dos direitos humanos. É um ataque à dignidade
de milhares de pessoas que lutaram para serem respeitadas como
profissionais, como familiares, como cidadãos. A desculpa de pesquisa ou
mesmo de livre arbítrio do paciente é ainda mais jocosa com a ciência e
com o óbvio: Se alguém busca tratamento é porque não está em paz em uma
sociedade que não o aceita. Ser um ex gay não existe, existe a busca em
querer ser heterossexual, para fugir dos estigmas, para agradar aos
outros.
Em nome de alguns, causou-se esse desconforto e sofrimento
em milhares ou milhões de pessoas que se identificam como homossexuais
no Brasil. Em nome de aparecer na mídia ou buscar apoio político de uma
causa falsamente dita cristã. Vemos todos os dias gays serem atacados ou
questionados de seus direitos, acusados de querem privilégios. É uma
afronta que precisa parar e seus incentivadores sofrerem punição. Chega
de homofobia e oportunismo disfarçados. As instituições precisam se
posicionar e enterrar o preconceito e com ele seus defensores.
Precisamos que os homossexuais defendam seus direitos difusos e
processem todos aqueles que evocam o direito de interferir na nossa
vida, saúde e dignidade.
Eu já sofri o bastante para dizer agora o que passei. Não
vou reviver isso. Mas lembro bem que quando me assumi, aos 18 anos, como
homossexual, meus pais me levaram para a terapia. Por sorte,
encontraram um profissional responsável que se negou a dar continuidade
ao desejo deles de que eu fosse “normal”. Foram anos para que eu
superasse a rejeição familiar e entendesse que o problema não está
comigo, mas com o mundo. Somos uma sociedade doente, desumana e sem
fraternidade. Já fomos jogados na fogueira, e hoje ainda somos mortos
por pessoas que são alimentadas por esses discursos de ódio. É preciso
dar um basta. Eu entendo a dor dos que se chamam de ex-gays. Não é fácil
enfrentar o mundo. Mas sabiam que vocês não estão sozinhos e que tudo
vai melhorar.
O jornalista Allan
Johan é fundador da Revista Lado A, voluntário do Grupo Dignidade e
atualmente é Coordenador de Diversidade Sexual da Prefeitura Municipal
de Curitiba.
Disponível em: http://revistaladoa.com.br/2017/09/blog-johan/cura-gay-em-uma-sociedade-doente-homofobica
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