
Por Rodrigo Santaella
As qualidades e o carisma como quadro público, a capacidade de expressar-se de forma simples e direta e a história que carrega sobre os ombros fazem com que Lula desperte encanto e sentimento de solidariedade em muita gente. De outra parte, é esse mesmo conteúdo histórico que ele carrega que desperta o ódio de muitos setores da sociedade. Admirado e odiado, Lula é um mito e é compreensível que desperte paixões, especialmente em uma situação extrema como a sua “condução coercitiva” para depor na última sexta-feira.
Entretanto, para aqueles que querem transformar a realidade, definitivamente é preciso desapegar-se do “mito Lula”. É inconcebível que a militância de esquerda e parte da intelectualidade do país se comporte de forma acrítica com relação ao que foram os governos Lula e Dilma. Sob a justificativa de que não haveria como fazer diferente, a opção por alianças com oligarquias as mais diversas, uma relação orgânica e bastante consolidada com setores do empresariado nacional e internacional, e os consequentes métodos de corrupção sistemática utilizados na administração estatal terminaram por destroçar quaisquer avanços que poderiam ter restado do chamado fenômeno do “lulismo”. Se em algum momento ele serviu para barrar alguns avanços neoliberais, isso acabou.[1]
Não só quaisquer avanços estão sendo desmantelados, como o próprio lulo-petismo toma muitas iniciativas nesse sentido. Retirada de direitos trabalhistas e ataques à Constituição de 88, privatizações, lei antiterrorismo, megaprojetos destruidores do meio ambiente, um fiasco na demarcação de terras indígenas, e tanto outros eteceteras. Tantas alianças e tanta corrupção em nome do projeto? Que projeto, caras pálidas? Lula, principal símbolo disso tudo, efetivamente atua como lobista internacional de megaempresas como a Odebretch. É aí que nós chegamos. E é essa a cara mais nefasta da decomposição melancólica de um projeto que surgiu da base e referenciado nas classes populares para tornar-se de cúpula e de setores das elites. Não é um projeto popular, longe disso.
Por outro lado, é preciso que não nos iludamos com a “Operação Lava-Jato”. Se ela tem o mérito de ajudar a elucidar mecanismos das entranhas da corrupção do país, não há dúvidas de que fere o Estado democrático de direito em alguns momentos, e o faz pautada em interesses também escusos. É o motor de um espetáculo bizarro, que empolga os desavisados e que conta com a volta escrachada de uma mídia que flerta com o golpismo e se encanta com as próprias possibilidades de incidir no futuro do país. A inspiração de Sérgio Moro na Lava Jato, a operação Mãos Limpas na Itália, contava com os mesmos métodos: vazamentos seletivos de informações alternado com prisões e apreensões espetaculosas, o que gera um espetáculo teatral midiático contínuo criador heróis e vilões. Agora, o jogo de troca-troca entre o judiciário e a mídia terminou por, de forma muito articulada, insuflar as manifestações marcadas para o dia 13 de março, oxigenando uma mobilização e uma agenda que já estavam arrefecendo no país. E nada é por acaso.
Depois de anos de fartura com os governos do PT, importantes setores dos “mercados” querem a queda de Dilma, e querem a cabeça do Lula. Isso fica claro quando vemos que o dólar baixou mais de 7% e a bolsa de valores teve as maiores altas dos últimos 7 anos nos últimos dois dias. O “mercado” não é neutro e contribui, pressiona e manipula suas peças no jogo político o tempo todo. A Lava-Jato tem tudo isso como pano de fundo, e é permeada por todos esses interesses – a blindagem e diferença de tratamento com relação aos partidos tradicionais do país, especialmente PSDB e PMDB, deixa isso muito claro – e por eles fere o Estado de Direito [2]. Não há o que se celebrar e não há heróis nessa polarização.
Não é hora de mobilizar-se em defesa do PT nem de Lula. Se a ação da PF deve requentar a ideia de uma polarização entre um suposto projeto popular e um projeto de direita, não devemos cair nessa cantilena. Não é hora de comemorar nada, nem a operação da PF nem o discurso inflamado e circunstancial de um Lula que lembrou velhos tempos. A hora é de aproveitar a crise para avançar na construção de outro projeto, pela base. As Frentes formadas não podem perder-se no discurso de defesa do governo ou de figuras como Lula, sob pena de perderem seu sentido. De imediato, não podemos esquecer do #ForaCunha, oportunamente deixado de lado no momento de maior fragilidade do Presidente da Câmara. Precisamos aproveitar o momento para criar uma nova plataforma dos movimentos que paute reforma agrária, dívida pública, democratização da comunicação, direitos sociais, etc. e ocupar espaços e o vácuo político que deve abrir-se no país. Se os espaços tendem a ser hegemonizados pela defesa de Lula e contra o impeachment, por um lado, e pela celebração de uma operação cheia de problemas e a busca pelo impeachment, por outro, nosso desafio, mais uma vez, é não cair na falsa polarização. Nessa disputa entre os de cima, o povo brasileiro tem pouco a ganhar. É preciso explicitar as semelhanças estruturais entre o que parecem projetos distintos, e ocupar o espaço, que tende a abrir-se com a perda geral de referências políticas, com a construção coletiva de outro projeto. Sem isso, seguiremos vendo a Nova República desmoronar em meio a uma disputa que há muito não nos pertence.
[1] Se dizíamos ainda em 2009, quando Lula tinha 80% de aprovação, que havia alguns avanços no governo, mas que por serem aliados a uma deseducação política e a uma lógica macroeconômica neoliberal impediam estruturalmente qualquer projeto efetivamente alternativo de sociedade, isso hoje está consolidado.
[2] É preciso dizer, entretanto, que o “estado de exceção” que tangencia uma operação como essas e que por ora assusta militantes do governo, atinge setores organizados do povo brasileiro há tempos, com anuência e protagonismo desse mesmo governo: lembremos do esquema de repressão montado durante a Copa do Mundo, para ficarmos em um exemplo.
Disponível em: http://brasilem5.org/2016/03/05/desapegar-se-do-mito-lula-e-nao-se-iludir-com-a-lava-jato/?blogsub=pending#subscribe-blog
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