Antônio Spadaro - Teólogo Jesuíta
Nesta segunda-feira, começa a última semana de trabalhos do Sínodo sobre a família. No domingo, 25 de outubro, a missa de encerramento presidida pelo papa naBasílica de São Pedro. Participa do importante evento o padre jesuíta Antonio Spadaro, diretor da revista La Civiltà Cattolica, que ressalta: estamos vivendo um processo eclesial de grandes dimensões, está em jogo a relação entre a Igreja e o mundo.
A reportagem é de Fabio Colagrande, publicada no sítio da Radio Vaticana, 18-10-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
"A impressão – afirma o Pe. Spadaro – é de um corpo vivo, que está refletindo de maneira real; que, portanto, se defronta com problemas, com linguagens e com modos de abordar a realidade muito diferentes. Entrando na Aula sinodal, damo-nos conta de que temos na nossa frente todo o mundo: pastores que vêm de todas as partes da Terra e trazem os desafios e as linguagens próprias da sua gente, e isso, às vezes, provoca conflitos: questões muito candentes são abordadas de maneira muito diferente em países diferentes. Portanto, eu diria que é um momento em que o debate é verdadeiro, real, e se coloca o problema da linguagem: como enfrentar evangelicamente os desafios que lugares diferentes deste mundo colocam."
Eis a entrevista.
Portanto, um trabalho que obriga a um discernimento também profundo, complexo em muitos casos.
Estamos vivendo isso! Nós estamos vivendo um processo de discernimento, como indicado pelo papa. Isso significa que vivemos as alegrias de estar juntos, de falar, de discutir, mas também todas as tensões típicas, até mesmo as tentações que um discernimento real pode trazer consigo. Portanto, é um momento muito delicado, em que se compreende que o que está em jogo é a relação entre a Igreja e o mundo. Isso realmente está em jogo aqui neste Sínodo: isto é, ver como a Igreja deve viver a sua relação com a realidade de hoje, que tem grandes desafios, grandes mudanças, mas que – repito – é muito diferente nos diferentes lugares da Terra. Uma grande experiência, sim.
Referindo-nos aos temas conciliares, poderíamos dizer que se trata de uma Igreja chamada a iluminar a realidade, mas também a escutar o mundo.
Não se pode iluminar a realidade sem escutá-la. O homem não é um elemento estranho à pregação do Evangelho: o Evangelho não é uma doutrina abstrata que vai atingir os homens a partir de fora, como uma pedra. Ele deve se encarnar em vidas vividas, em experiências; às vezes também conflitantes, às vezes serenas... Então, essa dimensão de relação com a realidade, com a experiência real, é fundamental. O Evangelho deve iluminar a vida na sua concretude.
Qual é a relação com o próximo Jubileu da Misericórdia? Nos círculos menores, salientou-se que é uma relação importante.
Esse tema surgiu nos grupos. Na realidade, foi o próprio papa que fez essa conexão forte: ele fez isso explicitamente no dia 6 de julho na sua homilia em Guayaquil, durante a viagem apostólica ao Equador. No fundo, o que estamos vivendo não só um Sínodo, é um processo sinodal, que foi iniciado em 2013 com o famoso questionário; depois, completou-se a primeira etapa sinodal e agora estamos vivendo a segunda. Mas ela vai desembocar no Jubileu da Misericórdia e não vai acabar por aí... É preciso compreender que estamos passando um processo eclesial de grandes dimensões. Por isso, não é de se admirar que haja momentos de cansaço, bloqueios, dificuldades, tensões... Mas também há a alegria de construir juntos a história.
Alguns, a propósito da pastoral familiar, no entanto, salientam que também é preciso redescobrir o sentido do pecado: qual é a relação entre pecado e misericórdia?
O anúncio do Evangelho, isto é, que o Senhor morreu por nós, morreu por mim, não é o anúncio do pecado. Então, é preciso entender bem a realidade do anúncio do Evangelho. O anúncio do Evangelho é um anúncio de misericórdia: à luz da misericórdia do perdão do Senhor, eu entendo o meu pecado, compreendo o meu pecado, porque o risco é cair em uma espécie de grande sentimento de culpa. Então, se não há a percepção do Deus misericordioso, o sentido do pecado é só um sentimento de culpa, muitas vezes inútil.
Misericórdia e verdade: neste ano – como no Sínodo extraordinário – essa antítese também voltou. No entanto, dos círculos menores, vem uma mensagem clara: misericórdia e verdade nunca estão em contradição. O que isso significa?
Não só não estão em contradição, como também a misericórdia é a verdade do Evangelho. Assim, qualquer contraposição entre doutrina e pastoral, entre misericórdia e verdade não tem sentido algum. A doutrina do Evangelho, isto é, o ensinamento do Senhor, é o ensinamento da misericórdia. A partir daí, depois, decorre tudo.
Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/547975-qo-que-esta-em-jogo-no-sinodo-e-a-relacao-entre-a-igreja-e-o-mundoq-entrevista-com-antonio-spadaro
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