segunda-feira, 19 de outubro de 2015

“A IGREJA DEVE DAR UM BASTA AOS PRECONCEITOS CONTRA OS GAYS”, AFIRMA CARDEAL BRASILEIRO SEGUNDO JORNAL ITALIANO

Últimos instantes do Conclave, 13 de março de 2013. Ao lado do argentino Jorge Mario Bergoglio, estava o brasileiro Cláudio Hummes: “Não tinha preparado nada. A frase “não se esqueça dos pobres” ao novo Papa me veio espontaneamente. O efeito provocado, obviamente não o esperava. Alguns minutos depois, Bergoglio comunicava que o seu novo nome seria Francisco, recordando São Francisco de Assis, o homem dos pobres, da paz, do cuidado da criação. Creio que toda a assembleia ficou surpresa e feliz por esta escolha, que depois se demonstrou um farol do pontificado”, responde do Brasil o ex-prefeito da Congregação para o Clero, que em menos de dois meses estará em Roma para o Jubileu. Hummes é um caro amigo e o primeiro aliado de Bergoglio. O brasileiro foi arcebispo de São Paulo, o argentino de Buenos Aires: os cardeais sul-americanos mais admirados no Vaticano. Ambos papáveis em 2005. No segundo Conclave, Bergoglio foi eleito.
A entrevista é de Carlo Tecce, publicada por il Fatto Quotidiano, 18-10-2015. A tradução é de IHU On-Line.
Eis a entrevista.
A fumaça branca está longe. Agora acontece o Sínodo sobre a Família e Bergoglio se confronta com os conservadores. Além da carta, há os protestos. Há alguns que querem obstaculizar Francisco?
A Igreja é uma comunhão, não uma massa uniforme. Mais. Ela se constitui uma unidade na diversidade.  Certamente, a diversidade não pode resultar numa divisão. Isto seria destrutivo. Mas uma adequada diversidade enriquece a Igreja. Podemos compará-la com uma estrada sinodal. Trata-se de caminhar juntos, para o futuro, com todas as nossas legítimas diferenças, mas sempre na unidade de fé, esperança e amor, para o Pai nos céus, por meio de Jesus Cristo. A diferença de visões e de experiências, no momento do debate sinodal, ajuda a aprofundar as coisas. Mas no fim deve prevalecer a comunhão presidida  pelo Papa, que é o Pastor de toda a Igreja. Todos somos corresponsáveis pela Igreja, mas o Papa é o que foi querido por Jesus como aquele que guia.
Voltará a estação dos corvos como nos últimos meses de Ratzinger?
Não acredito. Para mim, aquele clima em que aconteceu o Vatileaks, não existe mais. O caso desta carta não significa um retorno daquele clima.
Outra notícia recente: para o padre gay Charamsa, a Igreja é homofóbica.
Sem entrar no caso citado, não diria que a Igreja é homofóbica. Quando o papa Francisco, no caso do homossexual que busca a Deus, disse “quem sou eu para julgar?”, deu um sinal: a Igreja deve vencer uma atitude preconceituosa neste tema e, sobretudo, deve respeitar estas pessoas.
O que a Igreja pode fazer para acolher os divorciados recasados e os casais homossexuais e por que muitos recusam qualquer abertura?
Não se trará de negar a indissolubilidade do vínculo matrimonial, mas de buscar um caminho penitencial para os divorciados recasados. Digo: buscar.
Existe uma tal possibilidade?
É o que a Igreja, no momento, está procurando. Se existe, não se deve refutá-la. Além disso, a Igreja propõe que os casais divorciados apelem ao tribunal eclesiástico para verificar se o casamento foi válido ou não.
Quais são os desafios para o pontificado de Bergoglio?
Para o pontífice, a relação entre ambiente e desenvolvimento é um ponto fundamental. Este é, seguramente, um dos desafios mais difíceis não somente para a Igreja, mas para a humanidade. A questão não se reduz a um argumento ecologista, mas se apresenta como uma tarefa social, que diz respeito sobretudo à transformação do atual sistema econômico-produtivo-financeiro global. Trata-se de colocar a pessoa humana no centro, e não o dinheiro e o lucro a qualquer custo, inclusive de vidas humanas. O atual sistema devasta o planeta e sacrifica milhões de pessoas.
Outro desafio do Papa é reformar a Igreja no sentido de transformá-la numa Igreja missionária, “em saída”, que demole os muros e constrói pontes para andar ao encontro de todos, mas prioritariamente “nas periferias” humanas e sociais e ali anuncia Jesus Cristo e pratica a misericórdia. A misericórdia fará a diferença numa sociedade egoísta, individualista, fascinada pelo dinheiro.
Uma misericórdia baseada na justiça social, que defende e promove os direitos de todos aos bens materiais, culturais e espirituais da humanidade. O Papa tem falado dos três ‘t” (terra, teto e trabalho): são direitos dos pobres.
O Papa convocou um Jubileu extraordinário. O próximo será em dez anos. Bergoglio ficará até o fim do pontificado ou também poderá renunciar?
Espero e rezo a Deus para que o nosso amado Papa tenha um longo pontificado. Todo o resto são especulações. Em geral, considero que a renúncia de um Papa sempre é possível. Mas não vejo o Papa preocupado com o seu futuro.

Disponível em:  http://www.ihu.unisinos.br/noticias/547969-a-igreja-deve-dar-um-basta-aos-preconceitos-contra-os-gays-afirma-cardeal-brasileiro-segundo-jornal-italiano

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