Os juros altos blindaram a renda dos mais ricos durante a crise
econômica. Relatório da Receita Federal mostra que o rendimento de
aplicações financeiras, como fundos de investimentos e CDBs, mais que
dobrou entre 2013 e 2016, enquanto salários e lucros dos declarantes do
Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) mal acompanharam a inflação.
Os rendimentos financeiros saíram de R$ 65,8 bilhões em 2013 para R$
141,7 bilhões em 2016, de acordo com dados do IRPF 2017, que reúnem os
ganhos obtidos pelos brasileiros no ano anterior. O avanço de 115,3% foi
fruto do período de juros elevados, que incrementaram a remuneração
recebida por quem tem capital para investir.
A reportagem é publicada por O Estado de S. Paulo, 05-03-2018.
Para tentar combater a inflação, que acelerou fortemente nesse
intervalo, o Banco Central elevou os juros básicos da economia de 7,25%
ao ano no início de 2013 para o pico de 14,25% ao ano no segundo
semestre de 2015. A taxa se manteve nesse patamar até outubro de 2016,
quando o BC iniciou uma lenta redução dos juros, que só ganhou força no
início de 2017.
Embora tenha beneficiado o rendimento das aplicações financeiras, o
aumento nos juros provoca o efeito inverso na atividade econômica. Com o
custo mais elevado do dinheiro, empresas adiam investimentos e
consumidores postergam decisões de compra. Além disso, durante a crise,
salários ficaram sem aumentos significativos, e alguns lares até
perderam renda com a demissão de um ou mais dos seus integrantes. Tudo
isso afeta o consumo e, consequentemente, a capacidade das empresas de
gerarem lucro.
Tabela
O diretor do Centro de Cidadania Fiscal, Bernard Appy, defende o fim
da isenção para as LCIs e LCAs, aplicações financeiras voltadas para
estimular os setores imobiliário e agrícola. Ele também avalia não ser o
momento agora de fazer alterações nas faixas de renda da tabela do
IRPF. Para ele, é preciso antes de mais nada corrigir as distorções que
existem hoje na tributação da renda das pessoas físicas no País.
“Tem gente que propõe elevar a alíquota de pessoa física. Não faz
sentido enquanto não corrigir essa distorção. O coitado do empregado que
paga Imposto de Renda vai pagar mais ainda e a Pessoa Jurídica que não
paga não vai pagar”, afirma Appy, que é um dos maiores críticos no
Brasil no fenômeno crescente da “pejotização”. O PJ, pessoa jurídica,
paga cerca de um terço de tributos em comparação a um empregado
registrado, mesmo exercendo a mesma atividade.
Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/576631-juros-altos-protegeram-renda-dos-mais-ricos-na-crise
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