quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

SEGURANÇA PÚBLICA NÃO É LUGAR DE HERÓI

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De uns tempos para cá, o debate brasileiro sobre segurança pública tem sido tão mal conduzido por alguns, especialmente da política oficial, que é capaz de fazer lembrar a qualquer adulto o seu tempo de infância: é Batman, Capitão América, Homem de Ferro e outros que chegam e tentam povoar com soluções fáceis este complexo terreno que, por envolver liberdades, sentimentos e, principalmente, as vidas das pessoas, é um dos mais delicados campos das políticas públicas. 

O resultado desse protagonismo infantil não poderia ser diferente. Por exemplo, enquanto um ocupante de alto cargo nacional era filmado cortando plantas de maconha, vestido com roupas pretas e armado de facão, o real problema ocorria com as facções que se organizavam nos presídios para a venda de drogas, alastrando-se pelo território brasileiro. Por um lado, ancorado na falsa proibição chamada de “guerra às drogas” e, por outro, pela ausência de um real plano de segurança, com previsão de ações a curto, médio e longo prazo que atacassem, ao mesmo tempo, as múltiplas causas da violência.
 
Segurança pública é uma atividade que exige estudo, análise de casos de sucesso e de fracasso, de acordo com a vasta literatura já disponível, e ação planejada. É um tipo de atividade que exige menos adrenalina e empirismo de herói e mais concentração intelectual. De outro modo, a já batida expressão “inteligência policial” vira apenas uma figura de linguagem.
 
Dizem que o poder não deixa espaços vazios. Isso ocorre porque ele não é um objeto que se possui, mas uma rede de fluxos que está constantemente sendo tecida através de relações, como bem ensinou o filósofo Michel Foucault. Quando um local em que deveria ser exercido um poder público estratégico está vazio, a rede de poder se refaz nos níveis tático e operacional e até fora dos locais tradicionais de seu exercício. 

Já é hora de chamarmos as coisas pelos seus nomes corretos. O problema da segurança pública exige reunião de forças, conhecimento de causa, escuta interessada de variados atores sociais (moradores de periferias, policiais, acadêmicos etc.), planejamento detalhado, ações efetivas e uma relatoria precisa do que está sendo feito, a fim de verificar os erros que podem ser corrigidos, os acertos que podem ser repetidos e as ações que podem ser acrescentadas. Fora disso, tratar-se-á apenas de heroísmo individual, pueril e perigoso, cujos danos sentiremos todos nós, especialmente os mais pobres.

Anderson Duarte
anderson.selva@hotmail.com
Tenente da Polícia Militar
  


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Disponível em:  https://mobile.opovo.com.br/jornal/opiniao/2018/02/seguranca-publica-nao-e-lugar-de-heroi.html

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