De uns tempos para cá, o debate brasileiro sobre segurança pública
tem sido tão mal conduzido por alguns, especialmente da política
oficial, que é capaz de fazer lembrar a qualquer adulto o seu tempo de
infância: é Batman, Capitão América, Homem de Ferro e outros que chegam
e tentam povoar com soluções fáceis este complexo terreno que, por
envolver liberdades, sentimentos e, principalmente, as vidas das
pessoas, é um dos mais delicados campos das políticas públicas.
O resultado desse protagonismo infantil não poderia ser diferente. Por exemplo, enquanto um ocupante de alto cargo nacional era filmado cortando plantas de maconha, vestido com roupas pretas e armado de facão, o real problema ocorria com as facções que se organizavam nos presídios para a venda de drogas, alastrando-se pelo território brasileiro. Por um lado, ancorado na falsa proibição chamada de “guerra às drogas” e, por outro, pela ausência de um real plano de segurança, com previsão de ações a curto, médio e longo prazo que atacassem, ao mesmo tempo, as múltiplas causas da violência.
Segurança
pública é uma atividade que exige estudo, análise de casos de sucesso e
de fracasso, de acordo com a vasta literatura já disponível, e ação
planejada. É um tipo de atividade que exige menos adrenalina e
empirismo de herói e mais concentração intelectual. De outro modo, a já
batida expressão “inteligência policial” vira apenas uma figura de
linguagem.
Dizem que o poder não deixa espaços vazios. Isso
ocorre porque ele não é um objeto que se possui, mas uma rede de
fluxos que está constantemente sendo tecida através de relações, como
bem ensinou o filósofo Michel Foucault. Quando um local em que deveria
ser exercido um poder público estratégico está vazio, a rede de poder
se refaz nos níveis tático e operacional e até fora dos locais
tradicionais de seu exercício.
Já é hora de chamarmos as coisas pelos seus nomes corretos. O problema da segurança pública exige reunião de forças, conhecimento de causa, escuta interessada de variados atores sociais (moradores de periferias, policiais, acadêmicos etc.), planejamento detalhado, ações efetivas e uma relatoria precisa do que está sendo feito, a fim de verificar os erros que podem ser corrigidos, os acertos que podem ser repetidos e as ações que podem ser acrescentadas. Fora disso, tratar-se-á apenas de heroísmo individual, pueril e perigoso, cujos danos sentiremos todos nós, especialmente os mais pobres.
Anderson Duarte
anderson.selva@hotmail.com
Tenente da Polícia Militar
anderson.selva@hotmail.com
Tenente da Polícia Militar
Disponível em: https://mobile.opovo.com.br/jornal/opiniao/2018/02/seguranca-publica-nao-e-lugar-de-heroi.html
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