Luiz Carlos Borges da Silveira
O Brasil passa por período de mudanças tendentes a modernizar e
dinamizar a vida política e administrativa no âmbito do governo, por
isso acredito ser oportuno repensar e discutir a estabilidade funcional
no serviço público. Esse instituto vem do tempo em que a carreira
apresentava poucos atrativos em comparação com a iniciativa privada e
por isto buscou-se proporcionar alguma garantia ante as incertezas do
mercado de trabalho no setor particular.
Hoje, a estabilidade tem gerado vícios que visivelmente comprometem a
prestação do serviço, daí a necessidade de reconsiderá-la, debatendo a
viabilidade de sua extinção ou aplicação de novo ordenamento nas
relações de trabalho na área oficial.
É sabido que, com poucas ressalvas, a prestação do serviço público à
população é deficiente, morosa e extremamente burocrática com decisões
centralizadas sujeitas a uma legislação extensa e complicadora e algumas
normas ultrapassadas. A vitalícia garantia do emprego favorece a falta
de empenho e a acomodação, produzindo falsa necessidade de mais
funcionários para execução das mesmas tarefas. Daí, mais concursos, mais
gente contratada que logo estará igualmente desmotivada e acomodada.
Portanto, seria conveniente a adoção de normas que contribuam para
motivação funcional e consequente dinamização da atividade sem
sistemáticas admissões que incham a máquina e aumentam despesas sem
observância do critério custo/benefício. Uma das alternativas pode ser o
ganho por produtividade. A iniciativa privada utiliza esse sistema com
proveito em termos de aumento da produtividade e da qualidade, com
empregados em constantes treinamentos, reciclagem e avaliação séria que
resultam em vantagens salariais.

"Um dos problemas do princípio da estabilidade é sua banalização e extensão a categorias que se acham fora do benefício"
No âmbito público, em diversas carreiras isso é possível, como no
ensino, no atendimento de saúde. Haveria com certeza maior motivação,
mais empenho e participação com ganho para ambas as partes. A ascensão
deve ter por base o mérito, a dedicação e a produtividade. É verdade que
a administração federal aplica processo de avaliação, porém mais vale
para o currículo funcional contando pontos para eventual processo de
promoção. Além do mais, não utiliza critérios que assegurem
imparcialidade. É a chamada Avaliação 360 Graus, onde, curiosamente, o
funcionário participa e avalia a si próprio.
No fundo, tal avaliação não tem nada a ver com ganho por
produtividade, um mecanismo tão importante que até os clubes de futebol
de ponta, obrigados a altas contratações de profissionais caros passaram
a adotar uma tabela especial vinculando o salário do atleta a
conquistas do clube que revertam em mais renda, inclusive contratos
publicitários e de merchandising.
Um dos problemas do princípio da estabilidade é sua banalização e
extensão a categorias que se acham fora do benefício. Hoje, o custo da
máquina pública com funcionários que exercem atividade-meio ultrapassa o
limite da Lei de Responsabilidade Fiscal criando dificuldades e
impossibilitando o governo de melhorar o nível salarial, oferecer
gratificações, treinamento e reciclagem àqueles que exercem
atividade-fim, ou seja, que tratam diretamente com a população, que
atendem às pessoas, pois são esses que efetivamente cumprem o papel do
Estado. Os outros burocratizam o serviço e entravam o atendimento
público. Deve-se ter em conta que governo existe para atender ao povo.
*Luiz Carlos Borges da Silveira é empresário, médico e professor. Foi Ministro da Saúde e Deputado Federal.
Disponível em: http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/o-fim-da-estabilidade-no-servico-publico/
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