O que a intervenção no Rio de Janeiro e o moralismo reinante têm a ver
com a agenda de reformas no Congresso? Tudo faz parte de uma mesma
estratégia.
Pezão, Maia e Temer na assinatura do decreto de intervenção no Rio de Janeiro
Em meio a um cenário dos mais turbulentos, no qual vemos e sentimos com clareza e temor a marcha acelerada do neoliberalismo econômico em cadência perfeita com conservadorismo moral religioso, se aprofundam as mazelas sofridas pela classe trabalhadora.
Sob o falso pretexto de combate as drogas
e à criminalidade e mesmo de uma moralização social, o resultado real é
a perseguição, repressão e encarceramento massivo da população preta e
pobre.
Como afirmou Dom Mauro Morelli:
“Favelas remontam à abolição da escravatura por razões de natureza
econômica. Aos ‘libertos’ nada foi oferecido, sua opção foi ocupar
morros, alagados e debaixo das pontes. O inchaço das periferias
metropolitanas fruto do modelo de desenvolvimento do golpe de 1964. O
que virá agora?”
Se por um lado sabemos que a intervenção
nos subúrbios e morros do Rio de Janeiro infelizmente não é uma
novidade para quem lá vive, por outro não deixa de causar preocupação as
motivações obscuras por trás de sua oficialização e todo o empenho
político envolvido.
O projeto neoliberal vai, assim, se
aprofundando com a escolta de tanques do Exército e camuflado por
medidas autoritárias que servem de cortina de fumaça para seus objetivos
reais.
A camuflagem não diz respeito apenas à
vestimenta militar, mas a todo paramento ideológico que serve para
disfarçar as engrenagens que movimentam este projeto maléfico. A este
papel sujeitam-se de bom grado lideranças religiosas, algumas vezes
também políticas, na afirmação de valores morais e normas de conduta que
compõem a roupagem repressiva.
Neste sentido não é espantoso, mas sempre
indignante que lideranças religiosas e políticas alinhados com ideias
fundamentalistas utilizem sua notoriedade e influência sobre sua
comunidade de fé para manifestar posicionamentos políticos absolutamente
antagônicos com princípios religiosos que professam.
Marina Silva,
por exemplo, enquanto liderança política e publicamente reconhecida
como cristã, declarou apoio à intervenção no Rio de Janeiro, rompendo o
último e frágil elo com o passado de luta ao lado dos seringueiros pelo
meio ambiente e sobrevivência para alinhar-se ao projeto de empresariado
no qual ambiente e ser humano significam respectivamente meios de
produção e mão de obra.
Nada mais distante do Cristo perseguido e
torturado que uma cristã ou cristão defender a tortura, repressão e
execução. O Exército busca meios de se proteger de uma possível Comissão da Verdade para que não sejam julgado por “eventuais” crimes futuramente.
Por outro lado, precisamos enaltecer a
coragem profética de religiosos, sejam sacerdotes ou fiéis leigos, que
desde seus lugares de fé apontam as incoerências e violências de suas
lideranças. É o caso do citado Dom Mauro Morelli, entre muitos outros
cristãos coerentes com os ensinamentos de seu inspirador.
É o caso de nossos irmãos e irmãs espíritas
progressistas que enfrentam o conservadorismo dentro de sua fé a quem,
aproveitando o espaço desta coluna, queremos manifestar nossa sintonia e
o apoio.
No sábado passado um grupo de espíritas
progressistas de todo o Brasil publicou um manifesto em resposta à
entrevista coletiva de Divaldo Franco e Haroldo Dutra no congresso de
Goiás, na qual expressaram ideias separatistas e equívocos a respeito
dos estudos de gênero.
O manifesto faz
referência a “princípios básicos da ética espírita, que são os da
liberdade de consciência, amor ao próximo, fraternidade, entre outros”,
princípios compartilhados por quem professa a fé cristã. Por isso,
reproduzimos alguns trechos do manifesto e convidamos para sua leitura
na íntegra no site da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita.
Afirmam na carta que:
• Nenhum médium ou orador pode falar em nome
de todos os espíritas ou em nome do espiritismo. Isso é, por si só,
desonestidade intelectual;
• Quando um espírita, sobretudo se tem
influência sobre a comunidade, manifesta uma ideia ou uma opinião, tem
por dever se informar sobre os temas de que está falando, usar
referências confiáveis e estar em consonância com a lógica, com a
ciência e com o bom senso.
• Deve também, preferencialmente, defender os
direitos dos mais fragilizados socialmente, no caso as mulheres, as
crianças, os membros da comunidade LGBT+, que são objeto dessas
discussões dos estudos de gênero, justamente por estarem vulneráveis a
todo tipo de violência e desrespeito em nossa sociedade, além dos negros
e negras, as juventudes periféricas e as pessoas com deficiência.
• Não deve alimentar discursos de ódio
partidário nem medidas punitivas contra quem quer que seja: nossa
bandeira é a da educação, da fraternidade entre todos e da paz,
comprometidos com a democracia, a justiça social e a regeneração da
sociedade.
É absolutamente ultrajante que um religioso
apoie uma intervenção militar, ou qualquer procedimento antidemocrático e
injusto, assim como a tortura e pena de morte. Da mesma forma, é
inaceitável que se defenda um padrão e norma de conduta absoluta que
desconsidera a diversidade humana.
Alguns podem perguntar o que tem a ver o discurso moral dos espíritas no Congresso em Goiás com a intervenção no Rio de Janeiro
e as reformas neoliberais que afligem a população mais empobrecida.
Respondo: Tudo. O discurso moralizante é mais uma arma no estratagema
capitalista e conservador, que fere e mata. Não há inocência naqueles
que o empunham.
Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/de-camuflagem-moral-e-coturno-militar-o-projeto-neoliberal-avanca
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