Luana Severo
“Suba, suba! Não vai subir, não?!”, bradam
agressivamente três homens, em vídeo, enquanto Dandara, sentada ao chão,
mal consegue se mover. Ela chora. Um dos homens tira do pé o chinelo e o
utiliza para bater na cabeça dela. Chama Dandara de “viado ‘fêi’”.
Chutes e tapas vêm de todo lado em direção ao único alvo. A travesti
sangra e tenta subir no carrinho de mão enferrujado apontado por seus
algozes. Não consegue.
“Sobe logo! A ‘mundiça’ tá
de calcinha e tudo”, zomba outro que filma, antes de um quarto garoto
aparecer e chutar diretamente o crânio de Dandara. Depois disso, as
agressões miram só ali: na cabeça loura-avermelhada que resulta da
mistura de cabelo e sangue. Ela tenta levantar. Um quinto homem surge
com um pedaço de madeira quase do próprio tamanho e o utiliza para bater
repetidas vezes nela, que já não se sustenta. Juntos, os cinco levantam
Dandara e a jogam no carrinho. Levam sabe lá para onde. É encerrado com
um minuto e 20 segundos o vídeo da tortura.
Circulando
em páginas da internet, o assassinato da travesti Dandara dos Santos,
42, agredida até a morte no último dia 15 de fevereiro, no bairro Bom
Jardim, em Fortaleza, choca por inúmeros motivos, mas, principalmente,
pelo ódio dos agressores e pela banalidade como tiram a vida de alguém
que não consideram como igual.
O POVO Online opta por não divulgar o vídeo devido a violência contida nele.
Investigação
Em
nota, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS)
informou que as investigações sobre o crime estão a cargo do 32º
Distrito Policial e “estão bem adiantadas”. Contudo, não detalhou a
situação do inquérito “para não comprometer o trabalho”.
Coordenador
especial de políticas públicas para LGBT, Narciso Júnior chegou a dizer
para O POVO Online que “salvo engano, um dos rapazes (envolvidos no
crime) já estaria preso”. Ele deu garantia de ter mais informações sobre
as investigações na próxima segunda-feira, 6.
Para
a escritora e pesquisadora de gênero e sexualidade Helena Vieira,
histórias que envolvem agressões contra travestis como Dandara têm
múltiplos contextos. “Às vezes violência puramente de ordem transfóbica.
Mas, mesmo em situações de prostituição, drogas, entre outros, a marca
do ódio é grande. Sempre inclui tortura, espancamento, esquartejamento”,
pontuou.
Hérika Izidoro
Poucos dias antes de Dandara ser morta, no último 12 de fevereiro, a travesti Hérika Izidoro, 24, foi espancada na avenida José Bastos, na volta de uma festa de Pré-Carnaval,
e encaminhada para o Instituto Doutor José Frota (IJF), onde foi
diagnosticada com traumatismo craniano. Segundo o hospital, Hérika
continua internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
No
início da tarde, ao telefone com uma assistente social do IJF, o
coordenador do Centro de Referência LGBT de Fortaleza, Téo Cândido,
soube que Hérika havia tido melhora em seu estado de saúde e aguardava
leito para ser transferida para a enfermaria. “Todo dia eu vou lá, minha
mãe tá muito arrasada”, compartilhou a irmã da vítima, Patrícia Castro
de Oliveira.
Téo, que está em busca de articular
assistência social para a família de Hérika, disse que agressões
transfóbicas ocorrem cotidianamente em Fortaleza. “Muitas vezes não
denunciam por, historicamente, não serem reconhecidos como sujeitos de
direitos. Nem sabem que podem reclamar. Muitas travestis não denunciam
com medo de serem violentadas novamente. As delegacias não estão
preparadas para receber essas denúncias”, concluiu o coordenador.
Sobre
o caso de Hérika, a SSPDS se limitou a dizer que o inquérito está em
andamento pelo 3º Distrito Policial. Segundo a pesquisadora Helena
Vieira, que também é assessora parlamentar, o deputado estadual Renato
Roseno (Psol) chegou a enviar ofício para a pasta solicitando celeridade
no processo.
Disponível em: http://mobile.opovo.com.br/noticias/fortaleza/2017/03/travesti-e-espancada-ate-a-morte-no-bom-jardim.html
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