Um dos desafios da reflexão teológica é fazer uma leitura da realidade a partir do Espírito sem cair em espiritualismos. O II Congresso Continental de Teologia, organizado pela Amerindia e que aconteceu em Belo Horizonte,
partindo do tema “Igreja que caminha com o Espírito e desde os pobres”,
teve a finalidade de realizar esta tarefa, nem sempre fácil, mas da
qual depende o fato de que a Vida possa estar presente no dia a dia da
Igreja.
A reportagem é de Luis Miguel Modino e publicada por Religión Digital, 29-10-2015. A tradução é de André Langer.
De fato, como assinalava o teólogo brasileiro Marcelo Barros
em sua intervenção, na qual fez uma reflexão sobre “A multiforme
experiência do Espírito no contexto social, cultural e eclesial
latino-americano”, viver desde o Espírito nos leva a contemplar a ação
de Deus a partir de uma atitude de fé e confiança que nem sempre é
fácil. Ele faz um apelo para, como cristãos, apoiar e testemunhar a ação
do Espírito nos movimentos sociais, nos grupos e comunidades dos quais
cada um faz parte, pois, como dizia José Comblin, “todo ato de amor é um ato do Espírito”. Marcelo Barros, a partir do seu envolvimento na vida das CEBS
(Comunidades Eclesiais de Base), mostra que esta forma de ser Igreja
permite ouvir o que o Espírito diz hoje às Igrejas e ao mundo.
Mas o Espírito não é uma invenção cristã, mas surge desde tempos
imemoráveis na tradição dos diferentes povos e culturas e aparece
claramente na Bíblia. Carlos Mesters
– uma das vacas sagradas da teologia bíblica latino-americana e que
através da leitura popular da Bíblia ajudou muitas pessoas a entenderem e
identificarem-se um pouco mais com o Livro Sagrado – fez ver que o
Espírito aparece no Antigo Testamento como força que dá
vida à própria obra criadora e acompanha a vida do Povo de Deus ao
longo da história, como energia e sopro criador que comunica vida, como
um ímpeto que leva a fazer coisas extraordinárias, como sabedoria que
ajuda a discernir, como capacidade de guiar e conduzir o Povo.
O Espírito tem uma tríplice meta na vida do Povo de Israel, na opinião de Francisco Orofino.
Na Criação o Espírito tem como grande meta manter o equilíbrio, a
harmonia entre pólos antagônicos, sendo o Espírito de Deus quem mantém a
criação nas diferentes épocas. É o Espírito quem dá a resposta através
da Palavra, pois a voz humana é a resposta ao sopro de vida, já que Deus
é fiel ao grito que sai do pobre pedindo vida e justiça e gera vida
para responder a esse grito. Em última instância, na opinião de Orofino, qualquer manifestação cultural em defesa da vida vem de Deus.
Esse Espírito, que acompanha o Povo de Israel, também se faz presente na vida de Jesus, dos discípulos e das primeiras comunidades. Solange do Carmo,
biblista brasileira e especialista na dimensão catequética, afirmava
que a ação de Jesus parte de uma experiência do Espírito e à qual sempre
retorna, o que aparece claramente no Evangelho de Lucas.
De fato, na sua opinião, quem faz a experiência do Espírito não precisa
de mais nada e, por isso, não se pode entender a vida de Jesus e dos
discípulos sem a força do Espírito. Esta experiência do Espírito deve
conduzir à prática pastoral e à reflexão teológica.
No que diz respeito a essa presença do Espírito nas primeiras
comunidades e centrando-se na experiência das comunidades paulinas, Eduardo de la Serna
ressaltava que o Espírito dá ao cristão a mesma intimidade com Deus que
Cristo teve, deixando claro que o Espírito não aponta para si mesmo,
mas para o próprio Cristo. O teólogo argentino põe de manifesto que Paulo
universaliza a posse do Espírito, que deixa de ser um dom possuído
apenas por alguns, pois não há ninguém sem Espírito, embora alguns
queiram manipulá-lo.
Cabe destacar, a esta altura, a visita que fez ao Congresso dom José Maria Pires, pai da Teologia Afro-Brasileira, que nos seus 96 anos é um dos poucos padres conciliares vivos. O arcebispo emérito da Paraíba assinalava que este Congresso é um momento que leva a recordar o Vaticano II,
no qual se quis construir uma Igreja mais participativa. Ele afirma que
a teologia não é coisa dos grandes teólogos; é coisa da vida e das
pessoas simples, que refletem a partir do sensus fidei, de que fala o Papa Francisco.
Devemos continuar a nossa “caminhada”, da qual todos participam, não
apenas quem estudou muito, mas também aqueles que viveram muito e que
sofreram muito, e a partir daí reunir tudo para poder realizar com muito
entusiasmo e carinho aquilo que neste mundo é o Reino de Deus.
A pneumatologia parte da realidade e o Congresso, com a ajuda de Víctor Codina, refletiu sobre este aspecto, partindo da experiência da América Latina e do Caribe.
A tese que o teólogo jesuíta defende é que o Espírito do Senhor age
debaixo para cima, considerado como um lugar teológico, pois o Senhor
quer reverter a história a partir dos últimos. Em sua análise histórica
destaca que a Teologia do Espírito é uma questão
pendente na vida da Igreja católica, ao ponto de que as Igrejas
Orientais acusam-na de cristomonista. Esta falta do Espírito, que também
esteve presente na Teologia da Libertação até a década de 1990, fez com que este fosse substituído pelo que Congar chama de sucedâneos (Maria, a Eucaristia e o Papa).
Codina defende que o critério para saber se algo é do Espírito é confrontá-lo com Jesus de Nazaré e seu projeto do Reino. Partindo de sua tese inicial, a eleição de Francisco, um Papa
que veio do fim do mundo, e sua forma de agir, é uma prova a mais de
que o Espírito realmente age a partir de baixo, dos últimos e das
periferias.
Para terminar o dia com chave de ouro, o auditório encheu-se para ouvir as sábias palavras de quem foi chamado de pai da Teologia da Libertação, Gustavo Gutiérrez, que dissertou sobre “O Espírito e a autoridade dos pobres”.
Em sua reflexão, partiu da ideia de que “não podemos nos acostumar
com o fato de que ainda exista esta horrorosa pobreza em nosso
continente, em nossos povos”, fazendo um apelo para continuar
inconformados.
A partir deste fato desenvolveu sua exposição em torno de três
elementos: viver segundo o Espírito, a questão dos pobres de espírito e
sair em busca dos pobres de Jesus Cristo. É o Espírito que ajuda a
discernir os sinais dos tempos e a assumir o seguimento.
A primeira bem-aventurança do evangelista Mateus nos leva, na opinião de Gustavo Gutiérrez,
a colocar a vida nas mãos de Deus, a ser discípulos, testemunhas e
mártires. Assim se entende a atitude de Jesus de ir ao encontro dos
pobres, pois onde está o pobre, está Deus, está a justiça, apesar de
que, como ressalta a Teologia da Libertação, o pobre é o
insignificante, a não pessoa, aquele que não tem direito a ter
direitos. Na Bíblia, o pobre é aquele que não conta, ou nas palavras de Eduardo Galeano, os pobres são “os ninguéns, os ignorados”.
O pai da Teologia da Libertação defende que a
pobreza é algo que é contra a vida, é morte prematura e injusta, morte
física e cultural, e citando o ex-geral da Companhia de Jesus, Peter Hans Kolvenbach, disse que “a pobreza no mundo é um fracasso da criação”.
A partir da parábola do samaritano ressalta que só temos próximo se
nos “aproximamos”, pois nos fazemos próximos por reciprocidade, porque
saímos do nosso caminho. Assinala que a opção preferencial pelos pobres
leva a tornar realidade o fato de que os pobres sejam sujeitos de seu
destino, que tomem as rédeas de sua vida.
Como assinala o capítulo 5 de Gálatas, somos
libertados pelo Senhor para servir. Consequentemente, devemos descobrir
que colocar tudo nas mãos de Deus é libertar-se. Gustavo
termina sua intervenção com uma pergunta aberta: como dizer ao pobre
que Deus o ama?, e com a afirmação de que o grito do pobre deve estar
presente em nossas vidas.
Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/548510-gustavo-gutierrez-como-dizer-ao-pobre-que-deus-o-ama
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