A “direita alternativa”, uma vertente que defende a ideia da supremacia branca, ganha cada vez mais força.
O movimento Esperança Não Ódio expõe e analisa a rede internacional de propaganda neofascista
Ponr Mark Townsed
Uma rede de blogueiros e ativistas de direita surge nas
redes sociais britânicas como uma voz cada vez mais influente para os
nacionalistas brancos e os adversários do multiculturalismo. A rede
também leva crédito por ajudar a conduzir Donald Trump à Presidência dos
Estados Unidos, segundo um novo relatório.
Em sua análise anual sobre a extrema-direita, o Hope Not Hate (Esperança Não
Ódio), o maior movimento antirracista e antiextremista do Reino Unido,
declarou que, embora grupos de direita convencionais, como a Liga
de Defesa Inglesa, continuem se fracionando, novas forças que estão
surgindo podem alcançar um vasto público internacional e aumentar o
apoio à “direita alternativa”, que é definida como a extrema-direita com
um “elemento branco nacionalista” radical que se opõe ao
multiculturalismo e defende os “valores ocidentais”.
Uma análise da rede de extrema-direita
global durante 2016 – ano do Brexit e de um notável ressurgimento
populista por toda a Europa e os Estados Unidos – identificou 28 grupos
de extrema-direita ativos no Reino Unido e um grupo de britânicos
instrumentais para propagar opiniões da direita alternativa e idealizar
ataques à democracia liberal.
“Foi um ano em que ficou mais evidente
uma nova ameaça da extrema-direita, amplamente desenvolvida nas redes
sociais para um público internacional”, afirma o relatório. “É uma
ameaça que esteve no centro do fenômeno global das notícias falsas e que
pode atrair e mobilizar um número muito maior de pessoas em toda a
Europa e a América do Norte.”
Um exemplo dessas
atividades é oferecido por Paul Watson, sediado em Londres, editor e
redator do site de conspirações InfoWars, cujo artigo mais popular na
manhã da sexta-feira 10 era “Trump destrói juízes esquerdistas”. Watson,
que tem 483 mil seguidores no Twitter e 764.872 assinantes no YouTube,
foi um dos principais disseminadores da teoria conspiratória divulgada
na reta final da campanha eleitoral nos EUA, sobre supostos problemas de
saúde de Hillary Clinton, inclusive a fraude “Hillary está morrendo?”
Durante uma série de vídeos desavergonhadamente
conspiratórios assistidos milhões de vezes, Watson, originário de
Sheffield (centro-norte da Inglaterra), sugeriu que Hillary teria
sífilis, danos cerebrais e mal de Parkinson, e afirmou ser ela viciada
em drogas. As teorias da conspiração de Watson foram adotadas pela Fox
News, a emissora de tevê americana de direita.
Outro britânico cuja intervenção nas
eleições nos EUA teria sido decisiva é Jim Dowson, 52 anos, um escocês
calvinista que fundou o partido de extrema-direita e antimuçulmano
Britain First (Grã-Bretanha Primeiro). Dowson, a partir de uma central
na Hungria, montou uma rede de sites e grupos no Facebook voltados para
os EUA, com a intenção de promover Trump e difamar sua adversária
durante a eleição americana.
Os sites de Dowson incluem o Patriot News Agency – cujas
postagens foram vistas e compartilhadas dezenas de milhares de vezes nos
EUA e cujos artigos às sextas-feiras incluem a crítica a uma série da
Netflix (Dear White People) acusada de incitar o “racismo antibranco”. Uma investigação do The New York Times
em dezembro afirmou que, embora um volume considerável de notícias
falsas sobre a eleição nos EUA tenha emanado da Europa Central e do
Leste, a operação de Dowson foi a única de inspiração obviamente
política.
Nesse movimento de extrema-direita cada
vez mais internacional, Dowson é considerado adepto de construir uma
base de seguidores online e conseguiu atrair 1,4 milhão de usuários do
Facebook ao Britain First. O próprio Dowson descreveu sua estratégia de
como disseminar “devastadores memes e piadas anti-Hillary Clinton e
pró-Trump, em parcelas da população muito desiludidas com a política
para prestar atenção na campanha convencional”.
Segundo o relatório do
grupo Esperança Não Ódio, Dowson passou a maior parte de 2016
construindo uma rede internacional de partidos de extrema-direita,
milícias e extremistas religiosos. Seu grupo anti-imigrantes Cavaleiros
Templários Internacionais abriu uma “filial” em Budapeste, na
Hungria, onde o ex-líder do Partido Nacionalista Britânico Nick Griffin
foi visto em visitas frequentes, juntamente com rostos conhecidos da
extrema-direita da Suécia e dos EUA.
Para o Esperança Não Ódio, a influência
de Dowson crescerá neste ano, enquanto ele promove as relações com a
Rússia e agitadores de extrema-direita na Europa e nos EUA. Uma aliança
recente de Dowson envolve Aleksandr Dugin. Esse neofascista com supostas
ligações com o Kremlin estaria ajudando Dowson a criar um novo
escritório em Belgrado, a capital sérvia, que promoverá sites de
notícias de extrema-direita em grafia cirílica.
Nick Lowles, executivo-chefe do Esperança
Não Ódio, disse: “O fato de um jovem sentado em um pequeno apartamento
no sul de Londres poder criar manchetes nos EUA, ou de um extremista
britânico poder usar a capital húngara para influenciar a política na
Europa Central, Oriental e Meridional torna muito difícil monitorar e
contra-atacar esses grupos”.
Outro britânico considerado uma voz altamente eficaz da
extrema-direita, embora tenha tentado se afastar do movimento, é Milo
Yiannopoulos, editor de tecnologia do site americano Breitbart News, que
afirmou ter 45 milhões de visitantes únicos nas semanas que antecederam
a eleição de Trump e no período imediatamente posterior.
O ex-presidente-executivo do Breitbart
News, Steve Bannon, é hoje o “estrategista-chefe” de Trump, um homem
promovido ao Conselho de Segurança Nacional e que a revista Time
chamou na semana passada de possivelmente o segundo homem mais poderoso
do mundo. Em discurso numa conferência no Vaticano em 2014, Bannon
transformou em objetivo político minar a democracia liberal na Europa
Ocidental por meio da promoção dos movimentos nacionalistas.
Yiannopoulos, expulso do Twitter em julho por “incitar e
participar de abuso e assédio a outros”, teria assinado recentemente um
contrato de 200 mil libras com a editora Simon & Schuster para
escrever um livro. Nascido em Kent (Reino Unido) há 33 anos, foi
recentemente defendido por Trump como símbolo da liberdade de expressão
após manifestantes protestarem violentamente contra o discurso que faria
na Universidade da Califórnia em Berkeley, e tem mais de 525 mil fãs no
YouTube.
Outras importantes figuras britânicas
incluem o videoblogueiro Colin Robertson, que produz vídeos de
supremacia branca para o YouTube na casa de seus pais, em West Lothian,
na Escócia. Apesar de viver em um meio humilde, Robertson foi convidado a
falar no notório encontro da extrema-direita em Washington, em novembro
passado, que foi organizado pelo grupo nacionalista Instituto Nacional
de Políticas (NPI, na sigla em inglês), onde a multidão entoou Hail Trump e fez saudações nazistas.
O homem de 34 anos também
falou, no ano passado, em uma reunião inaugural do Fórum de Seattle, de
direita, uma filial de uma rede britânica que, segundo o Esperança Não
Ódio, se expande rapidamente. O Fórum de Londres realizou cinco reuniões
no ano passado, a última em setembro, com oradores como o negador do
Holocausto David Irving e o escritor americano de extrema-direita F.
Roger Devlin, que contribui para a revista nacionalista branca Occidental Quarterly.
Outros britânicos que falaram no evento do NPI em Washington foram
Matthew Tait, um ex-organizador do Partido Nacionalista Britânico que
promoveu uma série de reuniões da “direita alternativa” em Holborn,
Londres, no fim do ano passado.
Outro acontecimento foi a decisão do
governo de proscrever como organização terrorista a agremiação
neonazista Ação Nacional. Os defensores desse grupo comemoraram o
assassinato da deputada trabalhista Jo Cox, em junho passado, pelo
radical de direita Thomas Mair, de 53 anos. As autoridades teriam
informações de que alguns de seus principais ativistas tentavam
incentivar jovens recrutas a praticar atos terroristas e foram
solicitados a colocar adesivos antissemitas em prédios e bairros judeus
como parte de sua iniciação.
Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/revista/941/blogosfera-de-extrema-direita-faz-da-alt-right-um-fenomeno-global
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