Quase toda cidade pequena – principalmente as de Minas – tem
seu louco de estimação. Aquele que toda a cidade conhece, cuida e por
quem zela como uma espécie de patrimônio. Ibiá, onde nasci, tinha o Zé
Tem Dó; e foi com ele que aprendi sobre o valor simbólico de certos
objetos. Eu devia ter uns quatro ou cinco anos. Minha mãe era
costureira, e o Zé colecionava carretéis de linha. Portanto, suas
visitas à minha casa eram constantes, porque minha mãe guardava todos os
carretéis para ele e sempre oferecia algo mais, como um refresco, uma
roupa, um prato de comida.
Pensando que o Zé estava distraído, certa vez tentei pegar em um
destes carretéis. Ele se levantou com um pulo e, com mais dois, estava
parado na minha frente, protegendo os valiosos bens que, para minha mãe,
eram apenas sobras de trabalho. Saí eu correndo para o outro lado,
assustada, com medo. Zé pegou suas coisas e foi embora, conversando com
um dos carretéis que ele amarrava na ponta de uma linha e saia puxando.
Era seu animal de estimação ou seu carrinho, algo que ia muito além do
que eu conseguia ou conseguirei ver, a menos que um dia me torne um Zé e
vá eu mesma virar folclore em uma cidade do interior. Mas ali, naquele
episódio, aprendi uma coisa da qual pretendo falar aqui: o Zé não estava
brincando com um carretel e nem nós estamos brincando com um turbante.
Somos signos criados pelos brancos para que nossa negritude pudesse, e ainda possa, ser mercantilizada.
Boa parte da população branca
brasileira sabe de suas origens europeias e cultiva, com carinho e
orgulho, o sobrenome italiano, o livro de receitas da bisavó portuguesa,
a menorá que está há várias gerações na família. Quem tem condições
vai, pelo menos uma vez na vida, visitar o lugar de onde saíram seus
ancestrais e conhecer os parentes que ficaram por lá. E os descendentes
dos africanos da diáspora? Quando chegaram por aqui, os traficantes de
pessoas já tinham apagado os registros do lugar de onde haviam saído,
redefinindo etnias com nomes genéricos como Mina (todos os embarcados na
costa da Mina), feito-os dar voltas e voltas em torno da Árvore do Esquecimento
(ritual que acreditavam zerar memórias e história) ou passarem pela
Porta do Não Retorno, para que nunca mais sentissem vontade de voltar,
separado-os em lotes que eram mais valiosos quanto mais diversificados,
para que não se entendessem.
Diferente dos brancos, negros parecem não ter o direito de se orgulhar de suas origens
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Ainda em terras africanas tinham sido submetidos ao batismo católico
para que deixassem de ser pagãos e adquirissem alma por meio de uma
religião “civilizatória”, ganhando um nome “cristão” que se juntava, em
terras brasileiras, ao sobrenome da família que os adquiria. No Brasil,
não podiam falar suas próprias línguas, manifestar suas crenças, serem
donos dos próprios corpos e destinos. Para que algo fosse preservado,
foram séculos de lutas, de vidas perdidas, de surras, torturas,
“jeitinhos”, humilhações e enfrentamentos em nome dos milhares dos que
aqui chegaram e dos que ficaram pelo caminho.
Como resultado disto, somos o que
somos: seres sem um pertencimento definido, sem raízes facilmente
traçáveis, que não são mais de lá e nunca conseguiram se firmar
completamente por aqui. Temos, como diz a poeta, romancista, ensaísta e
documentarista canadense Dionne Brand, em seu maravilhoso A Map to the Door of No Return, “o próprio pertencimento alojado em uma metáfora”. Viver
na Diáspora Negra, segundo ela, é “viver como um ser fictício – uma
criação dos impérios, mas também uma autocriação. É ser alguém vivendo
dentro e fora de si mesmo. É entender-se como signo estabelecido por
alguém e ainda assim ser incapaz de escapar dele (…).”
Somos signos criados pelos brancos para que nossa negritude pudesse, e
ainda possa, ser mercantilizada. E não conseguimos escapar disso
porque, de antemão, sem ao menos nos ouvir, vocês já parecem saber o que
somos, o que queremos, o que sabemos. Assim mesmo: a negritude, a
militância, as mulheres negras, esse povo – nunca seres individuais, mas
sempre em lotes. E vivemos nesta metáfora que, a partir de agora, vou
passar a chamar de turbante, mas poderia ser outro símbolo qualquer.
O turbante coletivo que habitamos foi constantemente racializado, desrespeitado, invadido.
Viver em um turbante é uma forma de pertencimento. É juntar-se a
outro ser diaspórico que também vive em um turbante e, sem precisar
dizer nada, saber que ele sabe que você sabe que aquele turbante sobre
nossas cabeças custou e continua custando nossas vidas. Saber que a
nossa precária habitação já foi considerada ilegal, imoral, abjeta. Para
carregar este turbante sobre nossas cabeças, tivemos que escondê-lo,
escamoteá-lo, disfarçá-lo, renegá-lo. Era abrigo, mas também símbolo de
fé, de resistência, de união. O turbante coletivo que habitamos foi
constantemente racializado, desrespeitado, invadido, dessacralizado,
criminalizado. Onde estavam vocês quando tudo isto acontecia? Vocês que,
agora, quando quase conseguimos restaurar a dignidade dos nossos
turbantes, querem meter o pé na porta e ocupar o sofá da sala. Onde
estão vocês quando a gente precisa de ajuda e de humanidade para
preservar estes símbolos?
Lembro de ter visto um turbante usado por um homem sensível à causa das mulheres negras na Marcha das Mulheres,
que aconteceu há pouco tempo em Washington, que perguntava: “Verei
todas vocês, mulheres brancas legais, na próxima marcha
#VidasNegrasImportam, certo?”. Vocês, mulheres brancas legais que querem
se abrigar em nossos turbantes, vão estar conosco enquanto choramos as mortes dos nossos meninos negros e clamamos por justiça, certo? Vão usar turbante quando nossas mães e pais de santo são expulsos de comunidades ou entregues aos formigueiros, certo? Quando reclamamos da dor ao recebermos menos anestesia do que mulheres brancas durante os partos, certo? Quando denunciamos que sofremos mais violência,
mais abuso e mais assédio do que vocês, certo? Quando reivindicamos
equiparação salarial com vocês, certo? Vão reverberar nossas vozes
quando reclamamos que somos preteridas pelos homens (brancos ou negros),
certo? Vão entender e ter uma palavra de consolo quando sentimos culpa
por deixarmos os próprios filhos em casa para cuidarmos dos seus, certo?
Vão nos ouvir e nos defender quando tiver mais alguém querendo invadir
nossos turbantes a força, na marra, no grito, certo? Porque aí, o
turbante também já será de vocês. Vão ouvir, entender e falar junto
quando tentamos explicar que nossas reivindicações, distorcidas, não têm
nada a ver com pizza, calça jeans e feng shui, certo?
Quando vocês dizem “Vou usar e pronto,
quero ver quem vai me impedir”, às vezes dá vontade de pegar vocês no
colo, à moda das “mães pretas” que devem ter povoado as vidas de muitos
de vocês ou de seus ancestrais, e dizer que isso não é comportamento de
criança educada. E dizer que sim, algumas coisas são de vocês, porque
foram da bisavó de vocês, da avó de vocês, da mãe de vocês e que, deste
modo, a gente também poderia ter algumas coisas que são nossas, herança
de família. Quer ver: Pizza! (“É comida italiana!”). Acarajé – do iorubá
akara (bolo de feijão frito) + ijé (comida)
– (É MEU! É do Brasil! É de todo mundo!). Hashu´al (É israelita!).
Congado (É MEU! É do Brasil! É de todo mundo!). Quimono! (É japonês!).
Ojá! (É MEU! É do Brasil! É de todo mundo!). Kung Fu (É chinesa!). Capoeira! – do tupi ko´pwera ou
do umbundo kapwila – (É MEU! É do Brasil! É de todo mundo!). Abajur
(Vem do francês!). Moleque, quiabo, berimbau, samba, cafuné, zumbi… (É
MEU! É do Brasil! É de todo mundo!).
Cansamos de sermos personagens de piadas das quais só vocês riem.
E depois somos nós os divisionistas, os egoístas, os que não têm
cultura, enquanto vários outros povos podem manter, sem controvérsia e
sem serem obrigados a colocar na roda (É MEU! É do Brasil! É de todo
mundo!), as “contribuições” que trouxeram para o solo brasileiro. Já
entendemos que vocês acham que é (sempre foi) tudo de vocês. Só que
cansamos de ficar só nas cozinhas, nos quartinhos, nos corredores, nas
bordas das piscinas, sem sermos incluídos nisso aí que vocês chamam de
“povo brasileiro”. Cansamos de escutar que não sabemos, não vemos, não
entendemos, não queremos, não podemos. De ter que pedir licença pra
tudo, de ter que pedir desculpa mesmo quando somos os ofendidos.
Cansamos de servir quem nem sabe os nossos nomes. Cansamos de sermos
personagens de piadas das quais só vocês riem.
Quase todas as nossas discussões e
toda a produção intelectual acontecidas ali, sob nossos turbantes, são
desligitimizadas pela palavra de ordem #VaiTerBrancaDeTurbanteSim!,
gritada para nós com a mesma arrogância e espera de obediência que os
donos dos nossos ancestrais gritavam #NãoVaiTerCoisaDePretoAquiNão!.
Coisas mil acontecem dentro desses nossos turbantes, das quais vocês nem
têm ideia: temos que formar redes de apoio, invisíveis para vocês e
alheias à sua existência privilegiada, para socorrer, consolar, orientar
e fortalecer vítimas de racismo cometido por pessoas que se ofendem
quando apontamos suas faltas, e viram vítimas.
Debaixo deste turbante orientamos crianças negras a não levarem
banana na lancheira porque os amiguinhos vão chamá-las de macacos.
Orientamos nossos jovens a não usarem roupa com capuz, não correrem, não
fazerem movimentos bruscos em público e não parecerem suspeitos, seja
lá o que isso significa para vocês. Sob a proteção destes turbantes,
trocamos informações, discutimos teorias, nos comunicamos com turbantes
estrangeiros e até fazemos vaquinhas para pagar enterro de jovens
assassinados pela polícia. Concordamos, discordamos, rimos, choramos,
contamos segredos, gritamos, amamos, odiamos, estudamos, dizemos uns aos
outros que temos que ter infinita paciência para voltar cinco, dez,
vinte casinhas do ponto de entendimento em que estamos para responder a
egocentrismos do tipo “EU li Monteiro Lobato e não me tornei racista”,
“se EU usar turbante vou ser chamada de racista?”. Porque sabemos que
não são comentários nem perguntas inocentes, mas são também metáforas.
São os muros que protegem aqueles lugares que vocês habitam e nos quais
não somos admitidos, porque na porta sempre teve uma placa dizendo
“brancos somente”.
Vocês têm sempre um lugar outro para onde ir, que é este da branquitude.
O turbante que habitamos não é o mesmo. O que para você pode ser
simples vontade de ser descolado, de se projetar como um ser livre e sem
preconceitos, para nós é um lugar de conexão. Entre nós mesmos e com
algo que perdemos e que nem sempre sabemos o que é e por onde ficou.
Habitar nossos turbantes tem para nós o mesmo significado de “ir
conhecer a vila onde meus avós italianos nasceram”, ou “pude sentir na
pele o que meus bisavós viveram naquele campo de concentração”. Sim,
porque, entre muitos outros, ele tem estes dois significados: abrigo e
dor.
Nós não tiramos sarro de vocês quando vocês defendem estes lugares
que fazem parte da história do seu povo. Nós não fazemos piadas com os
significados que estes lugares têm para vocês. Não não dizemos que são
meras construções de pedras e tijolos empilhados uns sobre os outros.
Nós não os chamamos de burros porque a nossa ignorância não nos permite
entender o que vocês falam destes lugares que lhes são caros porque
trazem as marcas de seus bisavós, avós, pais, e que continuarão a marcar
as vidas de seus filhos, netos, bisnetos. E, no entanto, temos que
observar calados, sob a pena de tentarem nos calar à força, como a
bestas raivosas que vocês acham que nós somos – não é ação, é reação! –,
vocês meterem os pés nas nossas portas, invadirem nossos turbantes com
gritos de “VaiTerBrancaDeTurbanteSim!. Para vocês é morada provisória,
das quais vocês entram e saem conforme dita a moda e a vontade, porque
vocês têm sempre um lugar outro para onde ir, que é este da branquitude.
Nós não temos, porque nossa existência está cravada na pele, nossa
morada está acoplada às costas, à maneira dos caracóis. Nossa casa, para
você, é fetiche, é exotismo, é acessório, é fantasia. A nossa casa.
Na nossa casa, a gente não fala de turbante quando fala de turbante.
Dentre muitos dos seus nomes, o principal é racismo. É racismo quando
vocês acham que não sabemos do que estão falando. É racismo quando vocês
deduzem que precisam nos ensinar que pizza é italiana, que o algodão do
pano do turbante é indiano, que num mundo globalizado… etc etc etc. A
gente tem que voltar cinco, dez casinhas na discussão que vocês não
estão acompanhando porque não querem – mas se acham habilitados a dar
palpite –, para nos nivelarmos ao entendimento de vocês, só pra dizer: É
o racismo, estúpido! E antes que tenhamos que voltar mais trinta
casinhas para ouvir os “eu não sou racista!”: É o sistema, estúpido! E
sendo ele estrutural e estruturante da sociedade brasileira, faz com que
você trabalhe para mantê-lo, quer você queira, quer saiba, ou não.
Sobre apropriação cultural, a gente conversa depois de vocês lerem, por exemplo, o artigo da filósofa Djamila Ribeiro,
publicado muito antes desta briga de vocês pelo turbante virar modinha.
Ou o poema do mestre Nei Lopes, colocado aí abaixo. Neste caso, podem
ter certeza de que quando vocês vêm com o fubá (do quimbundo “fuba” ou
do quicongo “mfuba”), a gente já está comendo o angú (provavelmente do
fon “àgun”).
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BRECHTIANA (para Abdias Nascimento)
Primeiro,
Eles usurparam a matemática
A medicina, a arquitetura
A filosofia, a religiosidade, a arte
Dizendo tê-los criado
À sua imagem e semelhança.
Depois,
Eles separaram faraós e pirâmides
Do contexto africano
Pois africanos não seriam capazes
De tanta inventiva e tanto avanço
Não satisfeitos, disseram
Que nossos ancestrais tinham vindo de longe
De uma Ásia estranha
Para invadir a África
Desalojar os autóctones
Bosquimanos e hotentotes.
E escreveram a História ao seu modo.
Chamando nações de “tribos”
Reis de “régulos”
Línguas de “dialetos”.
Aí,
Lançaram a culpa da escravidão
Na ambição das próprias vítimas
E debitaram o racismo
Na nossa pobre conta
Então,
Reservaram para nós
Os lugares mais sórdidos
As ocupações mais degradantes
Os papéis mais sujos
E nos disseram:
-Riam! Dancem! Toquem!
Cantem!Corram! Joguem!
E nós rimos, dançamos, tocamos
Cantamos, corremos, jogamos.
Agora, chega!
— Nei Lopes
Disponível em: https://theintercept.com/2017/02/15/na-polemica-sobre-turbantes-e-a-branquitude-que-nao-quer-assumir-seu-racismo/


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