O Brasil lidera o ranking mundial de assassinatos de pessoas homossexuais. Só em 2015 foram registradas 318 mortes de gays, travestis, lésbicas, bissexuais e transexuais, segundo o Grupo Gay da Bahia (GGB). O principal motivo para os crimes é o ódio ao que parece diferente de si, afirma a psicóloga Grazielle Tagliamento, integrante da Comissão de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia.
A reportagem é publicada por Rede Brasil Atual – RBA, 15-06-2016.
"Justamente por conta dessa padronização da heterossexualidade
na sociedade, que é uma construção social, os espaços jurídicos,
políticos e religiosos colocam como anormal o desvio desse padrão. A
partir do momento que eu considero todas as orientações sexuais parte do
padrão, que espaço sobra para o campo de poder? Já que a
heterossexualidade faz parte de um campo de poder na sociedade, perdê-lo
acaba incomodando as pessoas e traz reações. Dependendo dos discursos
na sociedade, isso acaba impulsionando as pessoas a eliminarem esse
diferente", conta a psicóloga em entrevista à repórter Camila Salmazio, para a Rádio Brasil Atual.
Grazielle enfatiza que a construção do preconceito se inicia na infância.
A psicóloga destaca a importância de debater as questões de gênero nas
escolas. "Da mesma forma que vamos aprendendo a odiar esse diferente [de
nós mesmos], nós temos cada vez mais de trabalhar dentro da educação
familiar e escolar a desconstrução dessa versão. Nós não aprendemos a
nos aproximar do diferente, mas, sim, a sermos aversivos. Temos que
discutir isso nas escolas, mas há uma reação contrária para que não haja
essa discussão, alimentando mais essas situações de intolerância."
Leonardo Favre, relações públicas da Editora
Boitempo e pesquisador literário, assumiu a homossexualidade ainda na
infância. Para ele, a homofobia está implícita em pequenas ações do dia a
dia. "A questão voltada aos LGBTs é recordada quando uma pessoa é agredida.
Isso é a radicalização de tudo. Mas, se não
conseguirmos discutir as outras violências que estão montadas nesse
cenário, não vai mudar nada. Isso é a mesma chave da violência contra a
mulher, que é radicalizada no estupro, ou no racismo, radicalizado em
uma injúria. O cenário que monta essas desigualdades é a maior
violência, porque ele permite que as pessoas cometam essas atrocidades
diariamente e não enxerguem isso."
A violência contra a comunidade LGBT
se dá também pela falta de representatividade nos espaços de poder, nos
veículos de comunicação e na indústria cultural, segundo Leonardo. "A
própria indústria cultural colabora muito com isso. Nas novelas e nos
programas humorísticos, o espaço concedido ao homossexual é o do humor. A
ausência dessas pessoas em literatura ou outros ambientes é uma
violência. A ausência é uma violência. Não se cria repertório e quando
não se tem isso, não tem uma normalidade."
Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/556461-qhomofobia-e-construida-no-cotidiano-desde-a-infanciaq-afirma-psicologa
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