Paulo Spranger/Global Imagens
É a nova professora da Universidade de Coimbra. A música brasileira percorrerá o seu caminho e explicará, em cinco "master classes", porque nunca dissociou a poesia da música. E o comité do Nobel deu-lhe razão
Junto à porta há uma placa dourada com o seu nome.
Adriana Calcanhotto surge do seu gabinete na Faculdade de Letras da
Universidade de Coimbra. Será ali professora durante um semestre. Sentamo-nos à
enorme mesa que existe na sala do Instituto de Estudos Brasileiros. À volta,
livros. A cantora dedicar-lhe-á os seus olhos claros para preparar as cinco master
classes que dará para centenas de pessoas, de dentro e de fora da
Universidade, até junho. As
inscrições estão abertas a todos, e as vagas têm voado. Adriana vai cantar
um pouco nas aulas, mas vai sobretudo falar. De si, e dos trovadores medievais
e contemporâneos, como Vinicius ou Bob Dylan.
Diz que aprendeu a ler sozinha e a sua
primeira palavra foi "México".
Tinha cinco, seis anos. Quando entrei na escola
lembro que a professora escreveu no quadro "Boa tarde, crianças". E
perguntou o que é que está escrito aqui? Eu disse. Nenhum dos colegas sabia
ainda ler e eu vi que ia ficar numa situação difícil ali esperando os colegas.
Lembro que a professora me deu a cartilha e o menino que se sentava ao meu lado
disse assim: "Quando a gente receber a nossa a sua já vai estar velha e a
nossa vai estar novinha."
Ia fazendo outras leituras?
Sim, paralelas, em casa. Eu tenho uma tia que me
passava livros, é professora de língua portuguesa. Fazia questão e falar dos
autores antes de me entregar o livro. Lia muito gibis [BD] também,
gostava muito dos quadrinhos, da Mónica, essas coisas. Estava sempre lendo,
sempre procurando coisas para ler.
Essa tia dava-lhe só coisas para crianças?
Acho que me dava as coisas certas para a minha
idade. O primeiro livro que ela me deu de Clarice Lispector para crianças foi A
Mulher que Matou os Peixes. E aquilo mudou a minha vida para sempre,
porque a forma como a Clarice se dirige às crianças... Eu nunca tinha tido
aquela experiencia de ser tratada como leitora, e não só como criança. A partir
dali ficou para mim muito difícil ler os livros para crianças.
Quando é que começou a perceber que a
literatura também morava nas canções?
Eu sempre ouvi muita música, mas era a música que
as funcionárias da casa ouviam na rádio. Roberto Carlos, Wanderley Cardoso, Devolva-me,
uma canção que eu nunca esqueci e acabei gravando, é a que mais me marcou. À
noite com os meus pais eu ouvia música instrumental, a grande maioria do tempo.
O meu pai jazzista, a minha mãe coreógrafa. Tinha muito pouca coisa
com letra. A não ser Elis Regina, que a minha mãe ama, e João Gilberto, que era
o único cantor de música brasileira por quem o meu pai tinha alguma admiração.
Quando comecei a ouvir a minha música, a fazer as minhas descobertas na
adolescência, eu ouvia uma rádio que tocava só Música Popular Brasileira, a
cada semana tinha uma coisa maravilhosa do Chico [Buarque], do Caetano
[Veloso], tocava muito Vinicius de Moraes. Foi nesse momento que o Fagner
lançou um disco em que musicava poemas da Cecília Meireles, do Ferreira Gullar,.
E eu fui intuindo, antes de entender, que tinha ali uma coisa diferente, que
não era a mesma coisa que Devolva-me. Talvez não fosse melhor nem
pior, mas tinha uma coisa atrás daquilo, uma autoridade na voz do Vinicius de
Moraes, por exemplo, que me dava uma sensação: "Ele sabe uma coisa que eu
não sei e está aqui numa generosidade, partilhando isso". Tudo isto era
uma sensação. E enfim, ficava ali grudada. Aí eu descobri Oswald de Andrade,
por acaso, no Círculo do Livro [livros por catálogo]. A minha mãe viu que eu
queria ler, não sabia o que me dar, assinou. No meu currículo escolar só teria
aulas sobre isso dois anos depois. Fiquei fascinada com aquela irreverência
toda.
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Como com a Clarice, viu uma estrutura a ser
rompida.
Sim. Comecei a ler tudo o que dizia respeito a
Oswald de Andrade, aquilo tudo para um adolescente, aquela maluquice toda.
Nesse momento, o Augusto de Campos comecei a ir atrás do Augusto de Campos, das
suas traduções dos poetas que eu não poderia ler, porque eu só sabia português.
E a partir daí fui picada pela poesia. Já tinha uns 15, 16 anos. Segui essa
trilha, fui descobrindo as traduções. Lembro que em Porto Alegre eu estava
assistindo à televisão e apareceu o Haroldo de Campos [irmão de Augusto, também
tradutor e poeta], dando uma entrevista na televisão. Eu peguei um táxi, fui
correndo até à televisão para conhecer o Haroldo e pegar um autógrafo. Anos
depois, em São Paulo, ele lembrava de mim.
Era a única ali?
A única, sim. Eu acho que as pessoas acharam aquilo
tão incomum, que me deixaram entrar. Ele talvez também tenha achado aquilo
esquisito.
Essa experiência com as letras era uma
experiência solitária ou a Adriana tinha companheiros dessa paixão?
Não, não tinha, era bem solitário. Não encontrei
com as pessoas certas na hora certa, para dividir isso. Em relação à música não
era tão solitário. Mas isso talvez seja uma coisa do meu temperamento, sempre
gostei de estudar sozinha. Por isso é que eu estou encantada de estar aqui.
Os trovadores medievais aparecem-lhe já
como estudo ou ainda apenas como paixão?
Aí é um determinado momento da minha trajetória, a
partir dos livros, das traduções, do pensamento do Augusto. Tem a ver também
com [Ezra] Pound [e a sua relação com o trovador Arnaut Daniel], a partir do
Augusto. Passa a ser esse estudo da transmissão da poesia, e vai chegando
sempre essa questão da hierarquização da poesia cantada e da poesia de livro.
Agora as pessoas vêm falar da canção popular. Homero era para ser cantado,
falado. Quando você lê Homero, você vê que aquela estrutura é oral. Então eu
acho que também para não ter de lidar com essa questão, eu fui estudar. E
também porque a qualidade desses textos é excecional.
Fala muito de levar a alta poesia para a
rádio popular.
Eu lembro da sensação de quando eu ouvi o Fagner,
que era um cantor de grande apelo popular no Brasil, cantando Traduzir-se,
do Ferreira Gullar. Primeiro, quando eu ouvi, eu não sabia que era Ferreira
Gullar, porque eu o conhecia das entrevistas. Ele mudou a minha vida várias
vezes por eu ligar a TV e ele dizer loucuras, eu ficava com ossos para roer por
dois, três anos. Mas eu ouvi aquilo - "Uma parte de mim é só vertigem;
outra parte, linguagem " - e pensei: "Eu daria a minha vida por
isso." Que alguém, naquela situação em que eu estava, ouvindo rádio e
lavando loiça...
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