segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

ADRIANA CALCANHOTTO: "LARGUEI TUDO NO BRASIL PARA VIVER ESSA MARAVILHA"

 

Paulo Spranger/Global Imagens


É a nova professora da Universidade de Coimbra. A música brasileira percorrerá o seu caminho e explicará, em cinco "master classes", porque nunca dissociou a poesia da música. E o comité do Nobel deu-lhe razão
Junto à porta há uma placa dourada com o seu nome. Adriana Calcanhotto surge do seu gabinete na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Será ali professora durante um semestre. Sentamo-nos à enorme mesa que existe na sala do Instituto de Estudos Brasileiros. À volta, livros. A cantora dedicar-lhe-á os seus olhos claros para preparar as cinco master classes que dará para centenas de pessoas, de dentro e de fora da Universidade, até junho. As inscrições estão abertas a todos, e as vagas têm voado. Adriana vai cantar um pouco nas aulas, mas vai sobretudo falar. De si, e dos trovadores medievais e contemporâneos, como Vinicius ou Bob Dylan.

Diz que aprendeu a ler sozinha e a sua primeira palavra foi "México".

Tinha cinco, seis anos. Quando entrei na escola lembro que a professora escreveu no quadro "Boa tarde, crianças". E perguntou o que é que está escrito aqui? Eu disse. Nenhum dos colegas sabia ainda ler e eu vi que ia ficar numa situação difícil ali esperando os colegas. Lembro que a professora me deu a cartilha e o menino que se sentava ao meu lado disse assim: "Quando a gente receber a nossa a sua já vai estar velha e a nossa vai estar novinha."

Ia fazendo outras leituras?

Sim, paralelas, em casa. Eu tenho uma tia que me passava livros, é professora de língua portuguesa. Fazia questão e falar dos autores antes de me entregar o livro. Lia muito gibis [BD] também, gostava muito dos quadrinhos, da Mónica, essas coisas. Estava sempre lendo, sempre procurando coisas para ler.

Essa tia dava-lhe só coisas para crianças?

Acho que me dava as coisas certas para a minha idade. O primeiro livro que ela me deu de Clarice Lispector para crianças foi A Mulher que Matou os Peixes. E aquilo mudou a minha vida para sempre, porque a forma como a Clarice se dirige às crianças... Eu nunca tinha tido aquela experiencia de ser tratada como leitora, e não só como criança. A partir dali ficou para mim muito difícil ler os livros para crianças.





Quando é que começou a perceber que a literatura também morava nas canções?

Eu sempre ouvi muita música, mas era a música que as funcionárias da casa ouviam na rádio. Roberto Carlos, Wanderley Cardoso, Devolva-me, uma canção que eu nunca esqueci e acabei gravando, é a que mais me marcou. À noite com os meus pais eu ouvia música instrumental, a grande maioria do tempo. O meu pai jazzista, a minha mãe coreógrafa. Tinha muito pouca coisa com letra. A não ser Elis Regina, que a minha mãe ama, e João Gilberto, que era o único cantor de música brasileira por quem o meu pai tinha alguma admiração. Quando comecei a ouvir a minha música, a fazer as minhas descobertas na adolescência, eu ouvia uma rádio que tocava só Música Popular Brasileira, a cada semana tinha uma coisa maravilhosa do Chico [Buarque], do Caetano [Veloso], tocava muito Vinicius de Moraes. Foi nesse momento que o Fagner lançou um disco em que musicava poemas da Cecília Meireles, do Ferreira Gullar,. E eu fui intuindo, antes de entender, que tinha ali uma coisa diferente, que não era a mesma coisa que Devolva-me. Talvez não fosse melhor nem pior, mas tinha uma coisa atrás daquilo, uma autoridade na voz do Vinicius de Moraes, por exemplo, que me dava uma sensação: "Ele sabe uma coisa que eu não sei e está aqui numa generosidade, partilhando isso". Tudo isto era uma sensação. E enfim, ficava ali grudada. Aí eu descobri Oswald de Andrade, por acaso, no Círculo do Livro [livros por catálogo]. A minha mãe viu que eu queria ler, não sabia o que me dar, assinou. No meu currículo escolar só teria aulas sobre isso dois anos depois. Fiquei fascinada com aquela irreverência toda.







Como com a Clarice, viu uma estrutura a ser rompida.

Sim. Comecei a ler tudo o que dizia respeito a Oswald de Andrade, aquilo tudo para um adolescente, aquela maluquice toda. Nesse momento, o Augusto de Campos comecei a ir atrás do Augusto de Campos, das suas traduções dos poetas que eu não poderia ler, porque eu só sabia português. E a partir daí fui picada pela poesia. Já tinha uns 15, 16 anos. Segui essa trilha, fui descobrindo as traduções. Lembro que em Porto Alegre eu estava assistindo à televisão e apareceu o Haroldo de Campos [irmão de Augusto, também tradutor e poeta], dando uma entrevista na televisão. Eu peguei um táxi, fui correndo até à televisão para conhecer o Haroldo e pegar um autógrafo. Anos depois, em São Paulo, ele lembrava de mim.

Era a única ali?

A única, sim. Eu acho que as pessoas acharam aquilo tão incomum, que me deixaram entrar. Ele talvez também tenha achado aquilo esquisito.

Essa experiência com as letras era uma experiência solitária ou a Adriana tinha companheiros dessa paixão?

Não, não tinha, era bem solitário. Não encontrei com as pessoas certas na hora certa, para dividir isso. Em relação à música não era tão solitário. Mas isso talvez seja uma coisa do meu temperamento, sempre gostei de estudar sozinha. Por isso é que eu estou encantada de estar aqui.

Os trovadores medievais aparecem-lhe já como estudo ou ainda apenas como paixão?

Aí é um determinado momento da minha trajetória, a partir dos livros, das traduções, do pensamento do Augusto. Tem a ver também com [Ezra] Pound [e a sua relação com o trovador Arnaut Daniel], a partir do Augusto. Passa a ser esse estudo da transmissão da poesia, e vai chegando sempre essa questão da hierarquização da poesia cantada e da poesia de livro. Agora as pessoas vêm falar da canção popular. Homero era para ser cantado, falado. Quando você lê Homero, você vê que aquela estrutura é oral. Então eu acho que também para não ter de lidar com essa questão, eu fui estudar. E também porque a qualidade desses textos é excecional.

Fala muito de levar a alta poesia para a rádio popular.

Eu lembro da sensação de quando eu ouvi o Fagner, que era um cantor de grande apelo popular no Brasil, cantando Traduzir-se, do Ferreira Gullar. Primeiro, quando eu ouvi, eu não sabia que era Ferreira Gullar, porque eu o conhecia das entrevistas. Ele mudou a minha vida várias vezes por eu ligar a TV e ele dizer loucuras, eu ficava com ossos para roer por dois, três anos. Mas eu ouvi aquilo - "Uma parte de mim é só vertigem; outra parte, linguagem " - e pensei: "Eu daria a minha vida por isso." Que alguém, naquela situação em que eu estava, ouvindo rádio e lavando loiça...


  Disponível em:  http://www.dn.pt/artes/interior/adriana-calcanhotto-larguei-tudo-no-brasil-para-viver-essa-maravilha-5675736.html

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